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> Álvaro Henrique na Europa
livi
post Jun 29 2007, 21:46 PM
Post #41


Assiduidade 4
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Talvez com as coisas que eu disse tenha ficado uma idéia de que eu acho que os brasileiros tem muita musicalidade. A verdade é que vi pouquissimos violonistas daqui que tocam realmente bem. Nesse sentido concordo que Europa e EUA vão melhor. Até achei estranho quando o Alvaro Henrique falou que aqui se dava tapinhas nas costas pq o cara tem musicalidade mas não tem técnica. O que vejo por aí, geralmente os que estão no topo tem uma técnica muito boa e uma "musicalidade" razoavel, nada de tão fantastico. Realmente não conheço nem sequer uma dúzia de violonistas daqui que podem chegar ao nivel do pessoal que vi lá.

Agora, conheço uns 3 ou 4 daqui do Brasil que estão nesse nivel ou em um nivel mais alto, que em algum tempo estarão certamente em um nivel mais alto mas duvido que sejam reconhecidos, pois não perdem tempo punheteando o violão seis horas por dia e se passarem quatro horas tocando vão é ler algum repertório, trabalhar suas interpretações, experimentar algo de novo inves de passar esse tempo repetindo sempre as mesmas passagens até que saiam perfeitas e sem nenhum ruidinho.

Me preocupa toda a vez que ouço alguem dizer que o Barrueco é o cara e que o que ele toca é perfeito. Falar mal de Manuel Barrueco, ainda mais um ralé quenem eu que nem ler partitura direito não consigo, me aperto para ler um estudo do Sor a primeira vista, é ridículo. Não tenho essa visão maniqueísta babaca de que Barrueco é o diabo e Segóvia é deus. Só acho que Barrueco assim como Segóvia tem méritos e desméritos. Na minha opinião os méritos de segóvia são muito maiores. Mas simplesmente dizer que a estética do Barrueco é a total perfeição e a única coisa que se pode fazer é tentar chegar nela quem sabe limpando um pouco mais os translados e conseguir alguns trechos mais rápido é simplesmente matar a música. E posso parecer radical quando digo isso, mas escuto esse tipo de coisa o tempo todo.

Nos EUA, falei com um professor de violão e falei sobre o Thiago Colombo. Contei para ele como o Thiago não era um violonista assim tão técnico quanto alguns que tem por aí, mas que tinha uma musicalidade incrível. O cara me respondeu que hoje em dia não dava para não ter uma tecnica mais ou menos, pois o pessoal que tem hoje em dia nos concursos tinha uma tecnica brilhante E uma musicalidade fantástica. Eu ia responder algo tipo: Musicalidade fantastica? eu estou falando Sério. Não to falando de tocar limpinho e direito. Estou falando de fazer música sabe? Expressão pra valer. E quanto a técnica o cara tem sim, só não é um desses japoneses loucos que conseguem fazer passagens de oitava na velocidade da luz.

No final fiquei quieto, por que se eu falasse o que penso ia ofender o cara. Afinal logo me dei conta de que pare ele esse som pasteurizado e tudo igual era desejável e isso que era musicalidade.

Ja que se falou em política, o Brasil pode ter guera civil. Pelo menos nós não invadimos outros países e tentamos destruir suas culturas só por dinheiro. E corrupção hoje em dia está generalizada. Ao menos não destruimos os recursos naturais com tanta velocidade e violência. Na música reina na maioria do pessoal muita displicencia, mas pelo menos não somos devorados por um sistema que transforma a música em um ritual de uniformização.

Problema tem por todo o lado mesmo. Acho que temos que copiar o que os outros lugares tem de bom, mas também não é assim que por lá vai tudo as mil maravilhas.

Abraços.
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Rudi Porto
post Jun 29 2007, 22:19 PM
Post #42


Assiduidade 2
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Se na Europa tem todo esse requisito de técnica, limpeza,tradição etc, como o Yamashita ganhou os concursos lá tocando daquela forma ^?
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FZanon
post Jun 29 2007, 22:19 PM
Post #43


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Uma coisa que achei que o Álvaro iria mencionar. O que sempre me reconfortou na Europa é um sentimento de que a música que toco é parte da vida das pessoas. Mesmo quem não aprecia e não pratica sabe o que é. É o mesmo com a arquitetura, o patrimônio histórico e artistico. Há um denominador cultural comum, que dá liga à sociedade. Mesmo em cidades relativamente pequenas e desimportantes há gente estudando arte a sério; as pessoas têm respeito e se sentem unificadas pelo próprio passado, pelo fato de que chegaram até ali depois de tanto tempo, por terem esse passado comum.
Isso, mais do que a indústria algo cosmética de uma suposta alta cultura que a gente vê nos festivais, é o que torna tão interessante tocar para o público europeu e, para quem tem essa sorte, passar algum tempo estudando lá, ou voltar regularmente. Esse é um sentido muito profundo que a gente não tem aqui no Brasil, e pouco tem nos EUA e na Austrália.
Eu acho que isso se reflete no dia-a-dia, no respeito à coisa pública, nesse não admitir o que é inadmíssivel, que a gente não vê aqui.
Talvez seja uma visão de quem tem um vínculo com a Grã-Bretanha há 16 anos. Muita gente faz troça dos europeus, acha os ingleses distantes, os franceses estressados, os alemães rígidos, e não é nada disso. É o que eles têm, que nós não temos, que a gente critica. Quando eu saí do Brasil já tocava bastante bem, até mais limpo e cuidadoso do que toco hoje, então não encontrei nada que não tivesse dentro de mim, essa intransigência quando se trata de música, mas acho que ter morado tanto tempo lá me fez prezar mais essa busca artística. Quando alguém aponta em mim algum traço que adquiri morando lá, eu não me envergonho, pelo contrário, fico orgulhoso, porque isso me torna melhor como brasileiro.
A Alemanha e a Holanda, em particular, chamam a atenção pelo capricho nas coisas. Você anda por uma cidade no interior como Koblenz e não tem uma casa caindo aos pedaços, uma pintura descascada. As pessoas cobram civilidade, um papel não fica impunemente no chão, sem ser punido com o olhar dos transeuntes. Aqui, o Presidente joga papel de bala atrás do sofá.
Tenho uma amiga artista plástica que fez um projeto muito interessante com imigrantes na Inglaterra, bancado pelo Conselho das Artes. Há muita gente que vem de Bangladesh, de Barbados ou da Colômbia e não conhece sequer os pontos turísticos de Londres. Nunca esteve no Parlamento, no Big Ben, não sabe o que significa a Abadia de Westminster ou a Torre de Londres, nunca andou no Hyde Park. Ela leva essas pessoas para conhecer estes lugares e os fotografa.
Entendem o que é cidadania num sentido pleno? O espaço público pertence a todos, todos se sentem unificados por ele e cuidam. Mesmo quem não tem o menor interesse por música clássica na Inglaterra defende a necessidade de se manter a Sinfônica de Londres. É isso que faz com que a total alienação dos imigrantes pareça tão chocante. Aqui em são Paulo, muita gente tem essa mesma alienação - só que no lugar onde nasceu e cresceu.
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FZanon
post Jun 29 2007, 22:42 PM
Post #44


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Livi, eu acho o seguinte. Segovia era intransigente com técnica também. Ele não tocava mais ou menos, o velho se preparava pra tocar.
Usar os luminares como escala de comparação é muito complicado e injusto. Existe uma faixa média, e acho muito bonito que essa faixa média seja competente. Ter boa técnica não é defeito. A técnica do Thiago é excelente, é dos jovens brasileiros que seriam competitivos no cenário internacional; não acho que ele chame a atenção por ser musical, chama a atenção por ser completo. O mesmo dá pra dizer de uns 5 ou 6 outros violonistas com menos de 30 anos. É uma média bastante razoável.
Nem sempre a gente troca uma coisa pela outra. Se a alternativa é tocar uma ou outra passagem com garra, mas no geral está tudo uma baderna, ao menos o tecnicismo tem o mérito de melhorar o meio de campo.
O Brasil, em muitos setores, conta com o milagre. A gente ter tido Guiomar Novaes, os Abreu, Nelson Freire, Alex Klein, é um milagre, porque não há instituições que produzam estes caras. É mérito pessoal e só, é o dedo de Deus, mesmo.
No violão, esse dedo de Deus agiu aqui muitas vezes. algumas foi no violão clássico. Outras, mais talvez, no violão popular brasileiro. É um pouco injusto cobrar tanto dos concertistas brasileiros, já que aqui o ambiente para violão clássico não é dos mais favoráveis, enquanto a gente tem 50 ou 60 caras totalmente fora da norma no violão popular, e alguns, como o Baden, Garoto, Raphael, absolutamente transcendentes.
O Yamashita se tornou uma celebridade internacional porque o que ele faz, só ele faz. Ele simplesmente não tem concorrência no que escolheu fazer.
E eu sinceramente não consigo enxergar os EUA como referência no violão clássico. Há pessoas boas, há instituições, é o país onde realmente se ganha dinheiro tocando, o ensino, nas escolas mais bambambã é muito bom, mas paremos por aí. Eu tenho enorme respeito pelo Barrueco, porque sei quantas horas-bunda se gasta pra chegar no nível que ele chegou. Musicalmente ele é extraordinariamente claro e coerente, tem uma musicalidade à sua maneira sóbria. E a classe de Baltimore - mérito dele, e dos outros professores, Julian Gray e Ray Chester, é possivelmente a melhor do mundo hoje.
Tenhamos respeito por quem é médio. O Sérgio Abreu que sempre diz, o que é médio soa tudo meio parecido e o que é excelente tem personalidade própria. Todo mundo estuda pra ser extraordinário; quem não consegue tem de ser respeitado por ser competente.
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Alvaro Henrique
post Jun 29 2007, 22:59 PM
Post #45


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livi
post Jun 29 2007, 23:17 PM
Post #46


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Acho que o que está rolando como o Zanon falou um exagero pela minha parte e pela parte do Alvaro os dois ao mesmo tempo que gera uma dicotomia bizarra mesmo.

Como eu disse não quero desmanchar o trabalho de gente muito boa, nem dizer que o médio é lixo. Não é por aí. É só que acho que hoje em dia o pessoal quer é ter no ouvido aquela coisa confortavel e tudo meio igual. Só que no caso é totalmente incompativel pois estou falando da realidade norte americana que não é a Europeia.

É que eu acho que se ficasse mais claro para o pessoal que música não se trata de técnica, ou seja de mover os dedos, e sim de desenvolver o discurso e depois fazer com que os dedos busquem um caminho que realize o que é preciso, teríamos dez vezes mais violonistas bons, cem vezes menos violonistas péssimos e com isso o publico que nunca quis saber de dedos de ninguem vai ganhar interpretes capazes e renovar seu interesse.

Abraços.
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Eugenio
post Jun 29 2007, 23:22 PM
Post #47


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QUOTE(Alvaro Henrique @ Jun 29 2007, 10:59 PM) *
Eugênio, absolutamente todos os nomes que você citou viveram no exterior algum período da sua vida, e alguns deles moram na Europa nesse exato instante. Ou seja, realmente reforça a idéia que todo músico erudito tem de ir ao Velho Mundo. E, realmente, a semelhança com o futebol não é mera coincidência: a gente não se prepara direito, vai no "na hora sai", confia numa carta na manga, tem preguiça de treinar, acha que tradição e certidão de nascimento bastam pra vencer na vida, aí o grandioso e maravilhoso futebol que mais ganhou campeonatos mundial, e blá, blá, blá, perde de 2 a 0 pra um timeco qualquer que nunca chegou numa semi-final de copa - e quase foi 3 a 0!

Alvaro, esses caras provam exatamente o contrário, que não é preciso morar na Europa pra estudar violão clássico — o que não quer dizer que morar e estudar lá não seja válido, muito pelo contrário. Tanto o Turíbio quanto o Sérgio Abreu já saíram do Brasil em ponto de bala pra vencer o concurso de Paris, eles já eram músicos completos. Os Assads também já estavam prontos pra qualquer desafio. O que falta no Brasil é infra-estrutura pra ter uma média melhor, como você e o Zanon mencionaram muito bem. A gente vive de gênios e exceções.


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Onilink
post Jun 30 2007, 00:07 AM
Post #48


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Tocar perfeitamente é uma coisa extremamente relativa. O próprio Zanon, num vídeo que eu ví: ele destrói tocando o estudo 9 do Mignone, técnica maravilhosa, interpretação impecável, musicalidade 1000. Mas na parte final da música, ele deixa escapar uma pequena notinha. E ae? Ele perde o concurso por causa de um dedo que teimou não estar no lugar onde devia?

(ps. sendo ele, evidentemente que isso não aconteceria, mas e se fosse um anônimo qualquer? Será que passaria da 1ª fase?)
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livi
post Jun 30 2007, 00:51 AM
Post #49


Assiduidade 4
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Também não vamos exagerar. não é tocar incrivelmente bem e pisar uma nota que desqualifica alguem em nenhum juri do mundo. A não ser que o concurso ja esteja decidido antes de começar, então o escorregão de alguns candidatos é só uma desculpa furada para o escolhido para vender conseguir ficar em primeiro.

Mas a verdade é que eu teria um gigantesco interesse em saber o que você tem a falar sobre a Europa Alvaro, pois a chance de eu ir para lá logo que me formar é muito grande. O motivo é esse que o Zanon falou: um lugar onde se dá valor a arte. Eu imagino que lá um grande numero de profissionais não tenha que ter ganho um concurso para trabalhar. Afinal, ser músico é um emprego e não uma doênça que acomete alguns como se considera aqui no Brasil.

Perdão se fui grosseiro ou incisivo demais com algo que eu disse, jamais foi minha intenção. Acho que ando inquieto por estar passando por um momento muito decisivo da minha formação, ja que estou bem no meio do curso e cheio de questões na cabeça.

Grande abraço.
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Ricardo Dias
post Jun 30 2007, 01:05 AM
Post #50


O Sereno
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Bem falado; vamos pegar um pouco mais leve todos.


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Ricardo Dias
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