O violonista faz o repertório, ou o repertório faz o violonista ? Concordo com a segunda hipótese. Fico ouvindo alguns violonistas, parece que carregam pedras numa procissão, escolhem repertório não condizente com a técnica, se perdem numa mesmice infinita, não têm colorido nem dinâmica, não dão aquele brilho especial em suas interpretações, mas, por se tratar de obras de grandes compositores resolvem tocar, e aí é onde entra a questão, o violonista faz o repertório, onde na verdade o repertório é que FAZ o violonista. Vejo obras magníficas executadas numa monotonia de fazer dó. Por outro lado, vejo peças fáceis, por exemplo, certos Estudos, (por exemplo de Sor ) soarem mais violonísticamente do que certa obras complexas harmônicamente, em determinados violonistas. Enfim, o violonista deve escolher seu repertório baseado na complexidade da obra ou no que de fato consegue tocar com certa dinâmica e fluidez, fazendo tocar nos corações de pedra ? Eu escolho a segunda hipótese, a de que o repertório faz o violonista, e isso vale principalmente no clássico, onde temos obras de compositores notáveis que são interpretados numa monotonia Sartreana ( ou Kafkeana ). Exemplo: Bach. (Considero BACH um dos maiores compositores clássicos do mundo, mas certas obras não são condizentes com as seis cordas).
Um artista vaidoso busca, em seu repertório, obras grandiosas, mas que não consegue expressar nenhum sentimento na sua interpretação. Já outros, menos vaidosos, buscam em suas interpretações tocar na alma do ouvinte, mesmo com obras menos prodigiosas, com construções menos complexas, mas com acordes com grande variedade nos timbres, vozes se sobrepondo às outras, numa construção magnífica e melódica. O violonista é o músico que mais penetra na subjetividade. Não há dúvidas. Não conheço outro músico que não precise inter-agir com um grupo pra poder mostrar seu som. Já o violonista é subjetividade pura, não precisa de parceiro, de duo, de trio, ele pode mostrar sua arte subjetivamente, violão é pura introspecção, é uma entrada no próprio SER e uma manifestação da personalidade do artista, do próprio EU. Veja-se p. ex. um dos grandes violonistas no Brasil atualmente, que é o F. Zanon, o cara tem uma dinâmica que não encontro em Russell ou Williams. E tenho certeza que o Zanon não faz seu repertório, o repertório é que faz o Zanon. É simples, caros amigos violonistas, se Bream ou Zanon tocam a alma, é porque o repertório faz o violonista, e não o contrário. Claro que quando falo isso não quero desmerecer a técnica pura de Bream ou Zanon, mas quero dizer que esses violonistas não escolhem repertório, o repertório é que escolhe eles. Na realidade existem dois tipos de violonistas: os que tocam música e os que fazem música. Bream e Zanon fazem música. Não tenho nenhum constrangimento em me pronunciar elogiosamente em favor de um ou dois violonistas vivos. Teria constrangimento em me pronunciar negativamente sobre um violonista em que já não pudesse se defender, por já se encontrar morto, com uma grande lápide sobre a sepultura, em epitáfio elogioso onde, provavelmente, deveria afirmar: AQUI JAZ O MAIOR VIOLONISTA DO MUNDO. Mas isso não existe, Zanon está vivo e Bream tambem, (graças a Deus ) por isso que venho humildemente aqui, nesse forum dizer a altos brados, pra mim é um grande prazer frequentar esse forum e conviver e trocar idéias com vocês.
E Viva o Violão.
Grande Abraço do Santo.
O Violonista FAZ o repertório ?
Criado por Santo Braga, 06 Abr 2007 21:48
14 respostas neste tópico
#1
Postado 06 abril 2007 - 21:48
"You don`t have to be a genius to play the guitar but you need to have strong arms and perseverance" Andrés Segovia.
#2
Postado 06 abril 2007 - 22:01
Braga, suas idéias fazem muito sentido.
Eu até concordo quando você diz que o repertório faz o violonista.
Mas já que você afirma que o repertório é que faz o Zanon, seria legal se ele mesmo falasse a respeito, não é?
Abraços
Eu até concordo quando você diz que o repertório faz o violonista.
Mas já que você afirma que o repertório é que faz o Zanon, seria legal se ele mesmo falasse a respeito, não é?
Abraços
#3
Postado 06 abril 2007 - 22:08
Cara, acho que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não consegui encontrar absolutamente nenhum nexo causal entre as coisas que você disse. E olha que eu nem bebi!!!! = )
#4
Postado 06 abril 2007 - 22:12
Eu compreendi mais ou menos onde ele quis chegar. Mas o que eu pergunto é: Será que se o repertório do Bream ou do Zanon fosse outro, eles não seriam o que são?
#5
Postado 06 abril 2007 - 22:17
Pra tornar simples uma coisa complicada: sim, o repertório faz o violonista. O violonista tem de conhecer a fundo o repertório do seu instrumento. Só a partir daí ele pode escolher aquilo que funciona.
O problema é que muita gente nova (e muita gente mais velha também) não tem interesse em conhecer e só repete as músicas que ouve as outras pessoas tocarem. Daí acontece essa discrepância que o Santo percebe.
Às vezes o cara inexperiente escolhe uma música meio ambiciosa, não por vaidade, mas porque realmente adora aquilo, apesar de estar um pouco fora de seu alcance. O que também acontece muito é quem escolhe músicas inadequadas por achar que ficam bem num concurso, ou porque acha que dá pra criar um conceito no programa, ou para fazer uma integral para uma gravação. Acho que quem é jovem tem de se dar espaço para experimentar e errar. Estive com o Barrueco há algumas semanas e ele disse que quando era mais novo aprendeu muita música para tocar uma vez só, mas que hoje em dia não pode se dar a esse luxo. Eu ainda experimento muito, mas acho que no futuro devo ficar mais seletivo também.
O problema é que muita gente nova (e muita gente mais velha também) não tem interesse em conhecer e só repete as músicas que ouve as outras pessoas tocarem. Daí acontece essa discrepância que o Santo percebe.
Às vezes o cara inexperiente escolhe uma música meio ambiciosa, não por vaidade, mas porque realmente adora aquilo, apesar de estar um pouco fora de seu alcance. O que também acontece muito é quem escolhe músicas inadequadas por achar que ficam bem num concurso, ou porque acha que dá pra criar um conceito no programa, ou para fazer uma integral para uma gravação. Acho que quem é jovem tem de se dar espaço para experimentar e errar. Estive com o Barrueco há algumas semanas e ele disse que quando era mais novo aprendeu muita música para tocar uma vez só, mas que hoje em dia não pode se dar a esse luxo. Eu ainda experimento muito, mas acho que no futuro devo ficar mais seletivo também.
#6
Postado 06 abril 2007 - 22:49
Continuo sem entender muito...
#7
Postado 06 abril 2007 - 22:54
Pôxa, se alguem não entendeu, vou começar a falar no meu pobre latim: "In dubio pro reu." Significa: "Na dúvida, pro Reu". O réu sou eu, logo, Ricardo Dias, estou com a razão, mesmo tendo gerado dúvidas (ou bebido alguma coisa).
Sério, em resumo: "O repertório escolhe o violonista" quando este se coloca numa posição de sensibilidade e entendimento com a música ou compositor. É uma posição de seriedade e maturidade do intérprete. Quando o músico entende o compositor, então temos o fazer música. E sem se deixar violar, por gravadora, contrato, etc. Toca o que gosta, quando se identifica com a obra, não porque seja de Villa-Lobos ou Giulliani, toca porque aquilo lhe tocou na alma, e tenta passar ao ouvinte aquilo que, decididamente, lhe tocou na alma. Será que é preciso beber pra sacar isso ????
Abraços, Amigo Dias.
Sério, em resumo: "O repertório escolhe o violonista" quando este se coloca numa posição de sensibilidade e entendimento com a música ou compositor. É uma posição de seriedade e maturidade do intérprete. Quando o músico entende o compositor, então temos o fazer música. E sem se deixar violar, por gravadora, contrato, etc. Toca o que gosta, quando se identifica com a obra, não porque seja de Villa-Lobos ou Giulliani, toca porque aquilo lhe tocou na alma, e tenta passar ao ouvinte aquilo que, decididamente, lhe tocou na alma. Será que é preciso beber pra sacar isso ????
Abraços, Amigo Dias.
"You don`t have to be a genius to play the guitar but you need to have strong arms and perseverance" Andrés Segovia.
#8
Postado 06 abril 2007 - 23:07
Eu entendo o ponto. Acho que a questão é equilibrar as duas coisas. Como um intérprete toca algo criado por um compositor, que é uma segunda pessoa (a não ser em músicas de própria autoria), existe uma troca de influencia quase espiritual: o compositor faz o intérprete, e o intérprete faz o compositor. Ou, numa relação mais direta, a obra influencia a nossa visão do intérprete, e o intérprete a nossa visão da obra.
É como se o violonista formasse uma imagem, uma pessoa musical. O Julian Bream que conheço é uma composição do próprio Julian Bream e de todos os compositores que ele tocou. Se ele tivesse escolhido um repertório popular para fazer carreira, tenho certeza que minha imagem dele seria diferente (melhor ou pior). Sendo assim, cada peça que o intérprete executa o transforma, altera a imagem que ele possui. Nessa linha de raciocínio, é claro que o repertório faz o violonista. Mas o violonista também faz repertório, faz as suas escolhas, e apresenta sua visão.
E, muitas vezes, um único violonista consegue alterar toda a nossa percepção de uma obra.
A questão é o artista encontrar nos compositores que tem à disposição as melhores parcerias. No fim das contas, são sempre duas pessoas que vemos no palco, o violonista e o compositor.
É como se o violonista formasse uma imagem, uma pessoa musical. O Julian Bream que conheço é uma composição do próprio Julian Bream e de todos os compositores que ele tocou. Se ele tivesse escolhido um repertório popular para fazer carreira, tenho certeza que minha imagem dele seria diferente (melhor ou pior). Sendo assim, cada peça que o intérprete executa o transforma, altera a imagem que ele possui. Nessa linha de raciocínio, é claro que o repertório faz o violonista. Mas o violonista também faz repertório, faz as suas escolhas, e apresenta sua visão.
E, muitas vezes, um único violonista consegue alterar toda a nossa percepção de uma obra.
A questão é o artista encontrar nos compositores que tem à disposição as melhores parcerias. No fim das contas, são sempre duas pessoas que vemos no palco, o violonista e o compositor.
Samuel Huh
http://www.guitanda.com contato@guitanda.com
http://www.guitanda.com contato@guitanda.com
#9
Postado 07 abril 2007 - 10:56
Bem colocado, Samuel!!
#10
Postado 07 abril 2007 - 13:00
Acho essa historia de dizer o que os interpretes devem fazer uma baita viajem. Eu mesmo sou estudante de violao, e me mato para conseguir tocar mais ou menos umas pecas faceis. Fazer musica eh realmente muito dificil. Dai vem um e crucifica uma galera que trabalha de montao e nao tem a maturidade e brilhantismo artistico do Bream. Claro que soh um que outro sao genios como o Bream. Nem por isso deixam de ser competentes, trabalhadores, bem intencionados.
Existem os casos de gente que escolhe mal o repertorio, se leva por vaidade, ou por outros fatores. Mas essas decisoes tambem sao muito dificeis...
E mais: essa coisa de entender o compositor, tocar bem etc... isso eh muito suor. O que Bream tem nao eh simplesmente respeito pelo compositor. Segovia por exemplo nao dava muita bola, mas fazia coisas realmente brilhantes. Mas tocar como o Bream, Segovia etc... exige preparo, conhecimento, inteligencia. Eh muito background e know how. Nao basta acordar de manha e dizer: vou tocar o repertorio certo para mim e tocar como o compositor quer. Isso seria como acordar de manha e decidir: agora vou descobrir a cura do cancer.
Em suma: O problema nao eh soh vontado. Vontade muita gente tem. Precisa tambem de muita tecnica, conhecimento, acesso, etc.. Fazer o que o Zanon faz, que eh indicar caminhos que ele conhece e dar a sugestao de o que fazer eh muito bacana. Ficar dizendo que os violonistas sao desinteressados e nao respeitam a musica e o publico ja eh outra coisa e eh falta de respeito.
Abracos.
Existem os casos de gente que escolhe mal o repertorio, se leva por vaidade, ou por outros fatores. Mas essas decisoes tambem sao muito dificeis...
E mais: essa coisa de entender o compositor, tocar bem etc... isso eh muito suor. O que Bream tem nao eh simplesmente respeito pelo compositor. Segovia por exemplo nao dava muita bola, mas fazia coisas realmente brilhantes. Mas tocar como o Bream, Segovia etc... exige preparo, conhecimento, inteligencia. Eh muito background e know how. Nao basta acordar de manha e dizer: vou tocar o repertorio certo para mim e tocar como o compositor quer. Isso seria como acordar de manha e decidir: agora vou descobrir a cura do cancer.
Em suma: O problema nao eh soh vontado. Vontade muita gente tem. Precisa tambem de muita tecnica, conhecimento, acesso, etc.. Fazer o que o Zanon faz, que eh indicar caminhos que ele conhece e dar a sugestao de o que fazer eh muito bacana. Ficar dizendo que os violonistas sao desinteressados e nao respeitam a musica e o publico ja eh outra coisa e eh falta de respeito.
Abracos.












