Todo autor gera uma expectativa. A medida dessa expectativa se dá na afinidade que temos com a sua obra, ou com a falta dela. No meu caso específico, o grau de afinidade com a obra de Domenico Scarlatti justifica uma expectativa monstruosa, irreal até. Esse estado de alma acaba se tornando injusto com o intérprete, que dificilmente alcança o patamar do satisfatório.
É nesse contexto que adquiri e escutei o mais recente disco do Fabio Zanon: Scarlatti Sonatas.
Antes de falar sobre o trabalho, gostaria de abordar um outro trabalho hercúleo: conseguir comprar o CD.
É um album de distribuição limitada somente aos associados da Musical Heritage Society, um grupo onde seus membros se comprometem a uma compra mensal mínima. Em troca, ele têm acesso a ítens exclusivos da sociedade. Entre eles, o CD em questão. Não venho aqui discutir o mérito desse sistema, mas quero só apontar dois problemas: distribuição limitada e exclusão cultural, visto que no Brasil não se pode aderir à Musical Heritage.
Tentei adquirir pelos sites de compra tradicionais, mas era impossível de encontrar, e o único exemplar que achei tinha um custo proibitivo, acima da centena de Reais. Não consegui adquirir com o próprio autor, pois os CDs que ele tinha à disposição já estavam comprometidos. Felizmente, um colega caridoso, membro da Musical Heritage, me fez o favor de comprar o CD e enviar do exterior.
(Não cito aqui seu nome, para que ele não seja inundado por uma chuva de pedidos, mas gostaria de agradecer publicamente a sua gentileza. Se ele assim o permitir, divulgo o seu nome posteriormente)
Com o álbum na mão, fiz a primeira audição.
Existem trabalhos que crescem no nosso conceito após algum tempo, mas que não nos impactam da primeira vez. Este com certeza não foi assim. O impacto da audição inicial foi enorme, excedendo as monstruosas expectativas existentes e vencendo a primeira prova de fogo. Apresentou-se um conjunto impressionante, com momentos geniais, emocionantes e de incredulidade. O que salta à primeira vista: um timbre sempre de violão, mas ao mesmo tempo mutante, emulando o cravo em arpejos/escalas descendentes. Um controle de articulação preciso, com uma escolha de sonoridade seca e marcada contrastando com momentos breves de sonoridade bem ligada e fluida. Vozes e mais vozes, cantando de forma independente. O uso de pausas de forma extremamente eficiente, controlando todas as ressonâncias. E uma captação de som primorosa, de longe a melhor que já ouvi num CD.
A essa magnífica primeira impressão, somou-se uma maior apreciação dos detalhes e nuances da transcrição e interpretação. O disco abre com a Sonata K206, onde o Zanon marca bem as notas de abertura, seguindo esse padrão de articulação ao longo de toda a peça. É um exemplo modelar de polifonia e controle de pausas nos graves, criando um efeito de som mais seco que ressalta o pulso firme da interpretação.
Segue-se uma sonata mais lenta, a K485, onde os baixos são deixados mais soltos, e a interpretação em geral é mais fluida. Algumas pérolas como as escalas descendentes leves e secas à maneira de um cravo temperam a execução e dão o contraste aos trechos legatos.
A quarta faixa, a sonata K77, o Zanon conduz a duas vozes, contrastando uma voz bem aguda à uma grave, de forma melancólica e tranquila. É a sonata mais "esvaziada" do álbum no que tange à harmonia, em que o lirismo da melodia é crucial. Nesse caso específico o fraseado musical quase operístico do Zanon sustenta a peça, que passaria despercebida de outra forma. Mesmo assim, considero esta a peça em que o violão é menos bem representado no CD. A melodia superior parece exigir um instrumento mais cantante como o violino, o que está além do limite do instrumento. Diga-se de passagem, o mesmo me ocorre quando a imagino no cravo. Porém, para a estrutura geral do álbum, esta sonata cumpre uma função muito importante, a de ser prelúdio para a próxima faixa, ambas em modo menor.
Na faixa 5, estrategicamente colocada entre duas sonatas lentas, vem a minha obra preferida: a K394. Uma transcrição fantástica faz com que a obra não faça feio no violão. Aqui, provavelmente a peça de maior dificuldade técnica deste CD, é o único momento em que o Zanon acusa estar no seu limite técnico, principalmente nos arpejos que abrem a segunda parte, e em algumas escalas rápidas de transição. Porém, o clima que ele consegue imprimir é exuberante, e a faixa como um todo é hipnotizante. É a faixa que me fez parar o que estava fazendo e escutar, e instintivamente apertar o botão de repetir.
A K11, na faixa 8, é uma sonata curta e imponente. O Zanon aborda ela de forma forte e vigorosa, mesmo nos trechos mais doces. Nessa sonata podemos ver mais claramente onde o violão agrega valor em relação ao cravo, que é na riqueza de timbres, doçura e na "pegada" mais robusta.
A faixa 10 traz a K474, uma sonata lenta e misteriosa. A interpretação traz momentos líricos belos, mas em certos momentos, me parece que o cânone a duas vozes que permeia toda esta peça fica pouco aparente, se misturando como se fosse uma só melodia. Excetuando-se isso, é dos movimentos lentos um dos meus preferidos, pela interpretação de forte conteúdo emocional.
Em seguida, a K491 aparece quase que como um recomeço, pelo seu perfil introdutório. O seu caráter de substituir a resolução da frase por uma pausa dá à composição um caráter renovador, como se ela desse um novo impulso à própria audição do CD. Destacam-se aqui as retomadas do Zanon após essas pausas-resolução, sempre surpreendentes e refrescantes.
A sonata K477 que encerra o CD é interpretada de forma fluida e ressonante. A sonoridade mais cheia num movimento rápido chega a ser impactante após o padrão de apagar a ressonância dos baixos que existe em todas as sonatas rápidas anteriores. Mas o efeito atende bem à estrutura da peça, com a polifonia a diversas vozes, criando um ambiente bagunçado, caótico, mas premeditado. É um fechamento forte, adequado.
Ao final, senti falta de mais movimentos rápidos. Uma vez que as sonatas lentas têm minutagem elevada, elas tomam bastante tempo do álbum. Na minha opinião, ficaria mais equilibrado retirar uma das sonatas lentas e substituir por duas rápidas, principalmente na metade final do CD.
No geral, um CD impressionante, o melhor de Scarlatti que já ouvi para violão, e um dos melhores do compositor em qualquer instrumento. O Zanon tem a coragem de tocar no limite e vem se revelando um camaleão com identidade própria. Explico: ele consegue captar bem o estilo, transcrevendo para o violão de forma a nos fazer duvidar que sejam realmente transcrições, mas mantendo uma característica peculiar de sonoridade robusta, variação timbrística, pulso firme e fraseado lírico, presentes desde os CDs do Villa-Lobos e da Naxos.
No panorama geral do instrumento, me parece que está se consolidando uma escola barroca formada por: Bach-Scarlatti-Weiss. Nesse processo de formação do repertório do século 18, este CD consolida Scarlatti no ambiente violonístico de forma mais clara e definitiva, e contribui para preencher uma lacuna histórica muito importante na formação musical do violonista contemporâneo.
CD Zanon: Scarlatti Sonatas
Criado por huh, 20 Jun 2007 13:39
58 respostas neste tópico
#2
Postado 20 junho 2007 - 14:14
Huh,
com sua crítica sobre o cd fiquei super curioso, é uma pena que este trabalho seja exclusivo para associados da Musical Heritage Society; é de entristecer a restrição de um trabalho cultural.
Devido este fato me afligem duas dúvidas:
- A não popularização da música erudita não é por culpa nossa, que gostamos de ser elitistas até na distribuição de trabalhos?
- Num caso desse, piratiar (sem fins comerciais) este cd de um amigo seria errado?
Lanço essas polêmicas para discussão.
com sua crítica sobre o cd fiquei super curioso, é uma pena que este trabalho seja exclusivo para associados da Musical Heritage Society; é de entristecer a restrição de um trabalho cultural.
Devido este fato me afligem duas dúvidas:
- A não popularização da música erudita não é por culpa nossa, que gostamos de ser elitistas até na distribuição de trabalhos?
- Num caso desse, piratiar (sem fins comerciais) este cd de um amigo seria errado?
Lanço essas polêmicas para discussão.
#3
Postado 20 junho 2007 - 14:20
Dilson, tem a ver com o gosto pelo único e exclusivo que toma a todos hoje em dia. É uma bela jogada de marketing dos caras essa coisa da exclusividade; um belo diferencial. Agora, só achei que pisaram na bola ao restringir aos EUA. E nem deve ser para segregar o resto do mundo, deve ser apenas falta de logística mesmo.
Mas que nos deixa fulos, isso deixa!
Mas que nos deixa fulos, isso deixa!
André Priedols
www.andrepriedols.com
www.discordas.wordpress.com
www.andrepriedols.com
www.discordas.wordpress.com
#4
Postado 20 junho 2007 - 14:26
Essa resenha aguçou ainda mais a minha curiosidade.
Eita cd difícil de conseguir!
Eita cd difícil de conseguir!
#5
Postado 20 junho 2007 - 14:37
Samuel, parabéns pela resenha, muito boa mesmo, uma das melhores que eu já li.
Violão Popular Brasileiro: http://brazilianguitar.net

#6
Postado 20 junho 2007 - 17:16
André Priedols,
que resto do mundo?
para os americanos o mundo é só eles..rsss
que resto do mundo?
para os americanos o mundo é só eles..rsss
#7
Postado 20 junho 2007 - 19:46
Huh,
Confesso que eu estava ansioso pela sua resenha.
Depois de ler essa maravilha, reitero o meu convite. Daqui a pouco menos de meio século, quando sair o meu CD, você fará o texto do encarte. Não marque nenhum compomisso para a mesma data!
Você deixou todo mundo com água na boca. Ô, Zanon, encomenda logo uns 20 Kg de CD's pra vender aqui pra galera!
Grande abraço, Huh e Zanon.
Mário.
Confesso que eu estava ansioso pela sua resenha.
Depois de ler essa maravilha, reitero o meu convite. Daqui a pouco menos de meio século, quando sair o meu CD, você fará o texto do encarte. Não marque nenhum compomisso para a mesma data!
Você deixou todo mundo com água na boca. Ô, Zanon, encomenda logo uns 20 Kg de CD's pra vender aqui pra galera!
Grande abraço, Huh e Zanon.
Mário.
O covarde não começa, o fracassado não termina, o vencedor não desiste.
Canal do YouTube: http://www.youtube.c...mariosfernandes
Textos: www.portadapalavra.blogspot.com
Canal do YouTube: http://www.youtube.c...mariosfernandes
Textos: www.portadapalavra.blogspot.com
#8
Postado 20 junho 2007 - 22:18
Huh, concordo com vc, este CD é um dos mais impressionates que já ouvi, pra mim, uma das melhores gravações de toda a história do instrumento, e coincidentemente, nessas duas últimas semanas eu passo praticamente todo o meu tempo livre ouvindo este CD, aliás, até no trabalho. Uma pena é a dificuldade de acesso a este trabalho, lembro do Zanon comentando que estava no processo de gravação dele no Festival de Música na Montanhas no ano de 2003, desde essa época que estava louco pra ouvi-lo e só a poucos dias que conseguir conhecer essas gravações.
Quero até aproveitar a oportunidade do tópico, e a disposição do Zanon em nos responder, para perguntá-lo qual é uma boa gravação dessas sonatas no cravo mesmo, eu tenho a coleção das 555 sonatas com o Scott Ross, mas quero uma recomendação dele se possível...
E também, se não for pedir muito, saber, na medida do possível, quais sonatas do D. Scarlatti já foram transcritas para o violão. Quem conhecer algumas que foram transcritas, cite aí pra nós o número dela...
Abraços!
Quero até aproveitar a oportunidade do tópico, e a disposição do Zanon em nos responder, para perguntá-lo qual é uma boa gravação dessas sonatas no cravo mesmo, eu tenho a coleção das 555 sonatas com o Scott Ross, mas quero uma recomendação dele se possível...
E também, se não for pedir muito, saber, na medida do possível, quais sonatas do D. Scarlatti já foram transcritas para o violão. Quem conhecer algumas que foram transcritas, cite aí pra nós o número dela...
Abraços!
#9
Postado 20 junho 2007 - 22:37
Agradeço a generosidade dos comentários. A idéia realmente foi fazer algo que superasse meus CDs anteriores e, de fato, acho que o som está mais presente e eu me reconheço melhor nesse Cd.
O problema da distribuição é complicado, mas em resumo é: em 1996 eu assinei um contrato com a Music Masters, que é parte de uma companhia chamada Musical Heritage que, na época, era uma divisão da BMG. Na época, a BMG distribuía em mais de 40 países e lembro do meu orguho ao ver o CD com destaque nas lojas em Londres. Eles propuseram que eu gravasse um CD de Scarlatti em 1999 e claro que aceitei e assine contrato.
Mas a BMG fechou a divisão de clássicos no final de 2001, se não me engano, e a Musical Heritage, que é um clube de vendas pelo correio, simplesmente absorveu o catálogo Music Masters/BMG. Eu tentei me safar desse compromisso, mas meu contrato já estava assinado, o CD já estava gravado e não tinha o que fazer. Esta foi uma das razões do hiato de 6 anos entre a gravação e o lançamento.
No cravo, eu gosto muito das gravações do Rafael Puyana. O Scott Ross é miraculoso, ele gravou aqueles 38 CDs em pouco mais de um ano, um pouco antes de falecer. É uma gravação genial, mas, claro, tem uns momentos um pouco burocráticos pela pressa com que gravou.
No piano, Horowitz, Pletnev, Maria Tipo.
A editora Berben tem um album duplo com 80 sonatas transcritas para violao por C. Giuliani. São transcrições competentes, mas eu toco algumas que não estão lá.
O problema da distribuição é complicado, mas em resumo é: em 1996 eu assinei um contrato com a Music Masters, que é parte de uma companhia chamada Musical Heritage que, na época, era uma divisão da BMG. Na época, a BMG distribuía em mais de 40 países e lembro do meu orguho ao ver o CD com destaque nas lojas em Londres. Eles propuseram que eu gravasse um CD de Scarlatti em 1999 e claro que aceitei e assine contrato.
Mas a BMG fechou a divisão de clássicos no final de 2001, se não me engano, e a Musical Heritage, que é um clube de vendas pelo correio, simplesmente absorveu o catálogo Music Masters/BMG. Eu tentei me safar desse compromisso, mas meu contrato já estava assinado, o CD já estava gravado e não tinha o que fazer. Esta foi uma das razões do hiato de 6 anos entre a gravação e o lançamento.
No cravo, eu gosto muito das gravações do Rafael Puyana. O Scott Ross é miraculoso, ele gravou aqueles 38 CDs em pouco mais de um ano, um pouco antes de falecer. É uma gravação genial, mas, claro, tem uns momentos um pouco burocráticos pela pressa com que gravou.
No piano, Horowitz, Pletnev, Maria Tipo.
A editora Berben tem um album duplo com 80 sonatas transcritas para violao por C. Giuliani. São transcrições competentes, mas eu toco algumas que não estão lá.
#10
Postado 20 junho 2007 - 22:51
Obrigado Zanon!












