MÚSICA: MCCARTNEY LANÇA ÁLBUM ERUDITO E EM LATIM
Criado por Alvaro Henrique, 01 Ago 2006 18:45
17 respostas neste tópico
#1
Postado 01 agosto 2006 - 18:45
.
Alvaro Henrique - http://www.alvarohenrique.com
Associação de Violão de Brasília (BRAVIO): http://www.bravio.blogspot.com - Confira: http://www.impostometro.org.br/
Associação de Violão de Brasília (BRAVIO): http://www.bravio.blogspot.com - Confira: http://www.impostometro.org.br/
#2
Postado 01 agosto 2006 - 19:12
Cuando Mc'artney compuso "When I'm Sixty-Four", ¿se imagiaría que justamente a esa edad (64) estaria componiendo una misa en latin?
Juan Carlos
Juan Carlos
#3
Postado 01 agosto 2006 - 22:49
Juan Carlos Lorenzo, em Aug 1 2006, 07:12 PM, disse:
Cuando Mc'artney compuso "When I'm Sixty-Four", ¿se imagiaría que justamente a esa edad (64) estaria componiendo una misa en latin?
Juan Carlos
Juan Carlos
Pois é, meu caro: O tempo é uma lixa. Dependendo do material de que são feitas as pessoas, ele as desgasta ou dá polimento. Em certos casos, dá brilho.
Senescendo et addiscendo
#4
Postado 10 novembro 2010 - 22:02
Nossa
que tópico estranho..ehheh
Essa música do ex-beatle existe?
que tópico estranho..ehheh
Essa música do ex-beatle existe?
Wherever you go, there you are.
www ponto amon arroba gmail ponto com
www ponto amon arroba gmail ponto com
#5
Postado 11 novembro 2010 - 09:45
QUOTE(edvalson @ Aug 1 2006, 23:49 PM) <{POST_SNAPBACK}>
Pois é, meu caro: O tempo é uma lixa. Dependendo do material de que são feitas as pessoas, ele as desgasta ou dá polimento. Em certos casos, dá brilho.
Edvalson: - esta citação eu irei guardar...risos...
#6
Postado 11 novembro 2010 - 10:16
Não vou falar nada, prefiro ouvir primeiro....
#7
Postado 11 novembro 2010 - 10:27
Digamos que ele é mais famoso por ter composto Yesterday.
#8
Postado 11 novembro 2010 - 11:13
É; essas coisas são meio engraçadas; muita gente ( me incluo aí ) costuma torcer o nariz pro pessoal popular que se aventura no erudito.
Claro, não vai ser a mesma coisa que um sujeito que tem prática do ofício, mas o contrario também é verdadeiro; um compositor eminentemente erudito quando faz algo com intenção mais popular ou algo assim, soa meio fora de lugar também.
Outro dia assisti a um recital de violão e canto; cantor muito bom e violonista excelente, os caras fizeram o que puderam, mas não foi fácil ouvir algumas coisas brasileiras feitas por compositores eruditos ( com intenção mais popular ), soa arrastado, meio caricatural, a intenção é ser simples mas o cachimbo deixa a boca torna e acaba ficando meio rebuscado, sem a simplicidade cativante da música popular e sem o peso da obra erudita por assim dizer. Tinha hora que eu ficava imaginando os dois ali ao invés de estarem tocando aquelas obras fosse um arranjo bem feito de algo do Cartola, ou Noel Rosa.
O problema é que muitas vezes nós ( me incluo ), damos uma espinafrada no popular e temos uma condescendência com o erudito.
#9
Postado 11 novembro 2010 - 11:39
QUOTE(edvalson @ Aug 1 2006, 23:49 PM) <{POST_SNAPBACK}>
Pois é, meu caro: O tempo é uma lixa. Dependendo do material de que são feitas as pessoas, ele as desgasta ou dá polimento. Em certos casos, dá brilho.
Essa foi ÓTIMA!
Ta anotada aqui!
rs
#10
Postado 11 novembro 2010 - 12:01
Não vejo nehum problema de Paul McCartney tentar uma linguagem dita "erudita", afinal trata-se de um grande compositor da chamada música popular, na minha opinião a referência no grupo dos Beatles e que continuou um carreira individual de grande produção e de qualidade. Vejam essa crítica sobre essa sua experiência, foram 4 CD, achei uma análise bem honesta, sem a neurose dos que não aceitam em nenhum hipótese o intercâmbio popular/erudito ou erudito/popular, e tampouco sem o deslumbramento de um fã que acha que tudo eu o seu ídolo faz é genial e analisa as suas óbias limitações nesse tipo de linguagem, mas também reconhece a seu talento como criador musical.
Eu, por meu turno, tenho o CD "Oratório de Liverpool" e o CD "Ecce cor meum", e achei ambos bem interessantes.
Alberto
“No concerto de hoje, peças de... Paul McCartney”*
Álbum Ecce cor meum recebe o maior prêmio da música clássica inglesa e destaca
trajetória erudita do ex-Beatle, iniciada há mais de quinze anos
Carlos Eduardo Amaral
Continente Multicultural nº 79 - Jul/2007
No último dia 03 de maio, a expectativa na entrega do Classical Brit Awards
inusitadamente girou em torno de dois roqueiros da velha guarda que enveredaram na
música clássica e concorriam a “Melhor álbum do ano”, fato inédito na história da premiação.
Um foi Sting, que lançou ano passado Songs from the Labyrinth, no qual interpreta canções
do renascentista conterrâneo John Dowland (1563-1626), acompanhado pelo alaudista
bósnio Edin Karamazov; o outro foi Paul McCartney, que acabou levando o prêmio com Ecce
cor meum (Eis meu coração), um oratório em quatro movimentos, para soprano, coro misto,
coro infantil masculino e orquestra.
O álbum de Paul McCartney desbancou não somente Sting, mas o tenor Alfie Boe, o
barítono galês Bryn Terfel e outros seis CDs. A eleição da categoria não foi realizada pela
crítica; votaram os leitores da rádio Classic FM, organizadora do evento, e da Classic FM
Magazine, a revista da emissora. Claro que teve peso uma terceira categoria de eleitores: os
fãs de McCartney, equivalente a não-se-sabe quantas vezes a soma dos outros nove
concorrentes e que dão-lhe uma força em qualquer ocasião, mesmo em se tratando de
incursões em outros gêneros.
Ano passado, a estréia mundial de Ecce cor meum, na Inglaterra, e a estréia
americana, em pleno Carnegie Hall, mais do que premières em si, tornaram-se eventos de
tietagem, conforme o New York Times cobriu: “De um camarote central, cercado por
celebridades da mesma categoria, o compositor distinguia os gritos, os cliques das câmeras e
as bandeirolas em uma casa cheia, que parecia quase relutante em voltar a atenção para o
palco”.
Ao voltar-se à peça em si, o repórter Bernard Holland, não optou pela moderação: “A
grandeza da sensibilidade de McCartney esconde sua insignificância. Aumentando sua
intensidade, ela não se aprofunda em qualidade. Ao contrário, ela afunda a música e a
mensagem em um tipo de sentimentalidade viscosa. (...) Usando um vocabulário de cordas
cantantes, golpes nos tímpanos, floreios de metais e explosões virtuosísticas do órgão, o
Paul McCartney que avaliamos se traduz pobremente”.
Um julgamento meio pesado para um aprendiz esforçado, e que merecia ser dirigido a
investidas anteriores de Sir James Paul McCartney. Ecce cor meum é o quarto CD de uma
“carreira erudita” debutada em 1991. Naquele ano, o Liverpool Oratorio (Oratório de
Liverpool) atraiu a atenção da mídia e lançou mão de cantores solistas de peso na estréia. O
tenor Jerry Hadley recebeu o papel do protagonista Shanty, que nasce em plena Segunda
Guerra, mata aula na escola, perde o pai ainda jovem, casa-se com Mary Dee (personagem
de Kiri Te Kanawa), passa por instabilidades financeiras e conjugais e vive a felicidade de ter o
primeiro filho. Shanty podia atender por Paul, pois o enredo é, mal disfarçadamente,
autobiográfico.
O Oratório de Liverpool é um oratório no sentido romântico, ou seja, uma peça do
gênero que não aborda necessariamente um tema sacro que resulta, portanto, numa ópera
para sala de concerto, sem encenação e foi composto em colaboração com o maestro Carl
Davis, já que Paul McCartney só tivera algumas lições de piano na infância e nunca aprendeu
notação musical. A ajuda era imprescindível para tarefas mais complexas, a exemplo da
estruturação de idéias melódicas, da orquestração e da incrementação da harmonia. A má
recepção da crítica à iniciativa de um artista pop se aventurar pela música clássica não
atrapalhou a vendagem: o CD permaneceu no topo mundial dos álbuns clássicos por várias
semanas.
O elementar impedimento da falta de alfabetização musical não inibiu a EMI, com
quatro anos de antecedência, de encomendar a Paul uma grande obra para celebrar o
centenário de fundação da gravadora. Daí surgiu Standing stone (1997), um poema sinfônico
(mais propriamente, coral-sinfônico) em quatro movimentos que comportam dezenove
sessões. Em geral, os poemas sinfônicos são em movimento único; a divisão é justificada
pelos 75 minutos de duração da peça, baseada num poema (literário) de Paul que recria o
mito do surgimento do universo, da vida e da existência humana a partir do ponto de vista
celta. Além do poema sinfônico, duas telas à óleo derivaram dos versos originais.
Da desordem intencional das primeiras notas tocadas sem dedilhado nas cordas e
nos sopros, conotando o caos e a incipiência ao canto final do coro que balbucia e forma
uma letra depois de passar outros movimentos entoando vocalises , a música celta é o cerne
dos temas, exceto por uma pincelada atonal, na cena Lost at sea. Desta vez, um software e
um teclado especial permitiram a Paul McCartney caminhar sozinho, sob orientações
técnicas de Richard Rodney Bennett e outros amigos. Standing Stone (que quer dizer “a
pedra que jaz em pé”, um menir à la Stonehenge) foi o ultimo trabalho de antes do falecimento
de Linda McCartney e ostenta uma importante referência dela. A foto de capa do CD, tirada
por Linda, é oriunda do primeiro CD de Paul (McCartney, 1970).
Enquanto Standing Stone estava sendo concebido, surgiram outras quatro peças
isoladas. Duas delas, Spiral e A leaf, integram o terceiro CD da linhagem. Ocorre que Working
classical (1999) está mais para uma coletânea de arranjos: das 14 faixas, nove são
reinstrumentações para quarteto de cordas de canções pop, extraídas de cinco CDs
anteriores de Paul. As inéditas Haymakers e Midwife, para quarteto, e Tuesday, para
orquestra, completam o repertório instrumentado por R. R. Bennett e Jonathan Tunick. Em A
leaf, McCartney ainda arriscou um trecho em estilo mozartiano alla turca.
Haymakers, Midwife e o arranjo de Junk são peças plácidas e graciosas; Warm and
Beautiful e My love guardam uma emotividade tipicamente britânica, com melodias
românticas mas não passionais. Maybe I'm amazed é bem ritmada e fiel à peça original. Isso
tudo é dito no que se refere à atmosfera das obras, porque a qualidade delas oscila; em boa
parte das composições, faltam densidade harmônica e um melhor aproveitamento do
quarteto, principalmente do violoncelo. Quanto ao sucesso de vendas, tanto Working
Classical quanto Standing Stone conseguiram emplacar nas paradas clássicas do Hemisfério
Norte.
Em 2000, surge o CD Garland for Linda, cujo objetivo era arrecadar fundos para a
organização The Garland Appeal, estabelecida para combater o câncer de mama. Não se
trata de um álbum autoral (por conta disso, não contabilizado no catálogo erudito de Paul) e,
sim, de uma coletânea de peças corais de compositores ingleses de várias épocas, como
John Rutter, John Taverner, Ralph Vaughan-Williams e Micheal Berkeley. Paul McCartney dá
uma de maestro e rege sua Nova, a primeira criação pós-refrigério, num ato que significou o
fim do luto pela morte de Linda.
A auto-referência da criação musical erudita de Paul parece evidente até aqui. O
Oratório de Liverpool (cuja adaptação para apresentação cênica está sendo preparada pela
atriz Kate Robbins) retrata a vida do próprio McCartney. O poema Standing Stone inspirou as
duas telas e o poema sinfônico e um revival discográfico compõe Working classical. Linda
pode ter sido a força-motriz, considerando só as peças clássicas, de Nova, em Garland for
Linda, mas ela se fez mais presente em Ecce cor meum, iniciado em 1998 e concluído em
2005.
É interessante assinalar três pontos desse evocativo “Réquiem para Linda”. Apesar de
Ecce cor meum possuir frases em latim, nada complexas e que fazem a mídia divulgar o
libreto como bilíngüe, elas não somam mais de dez por cento dos versos. Apesar de Ecce cor
meum ser nominalmente um oratório, não tem a linha narrativa que caracteriza esse tipo de
obra; é a rigor uma cantata. E apesar dos oratórios tradicionais remeterem a episódios
bíblicos, Ecce cor meum é um caso único de oratório deísta, pois evoca não a Deus, mas ao
Espírito: “Spiritus, spiritus, lead us to love”.
Se Paul fosse aluno de composição, teria merecido uma boa nota em sua emulação
dos oratórios ingleses só não agradaria aos professores mais progressistas. O crítico Allan
Bozinn, também no New York Times, avaliou os recentes mergulhos de vários roqueiros no
universo erudito, e, sem tocar nos méritos das experiências, observou que “Astros do rock
que se interessam por música clássica são grotescamente conservadores. Eles podem tocar
os materiais musicais mais eletrificados, distorcidos e de acentuação agressiva, mas quando
decidem escrever música clássica, ou o que eles pensam ser música clássica, empunham
uma pena em vez de uma caneta. Com a exceção notável de Frank Zappa cujos rascunhos
refletem a fascinação dele com Edgard Varèse e outros modernistas, músicos de rock
parecem pensar que as convenções do século 19 são o idioma atual de música clássica”.
Ecce cor meum se enquadra nessa constatação. Mas o êxito da obra se deve
justamente por tocar no gosto da maioria dos apreciadores de música clássica, como opinam
os blogueiros Darren De Vivo, da rádio WFUV de Nova Iorque, e David R Dunsmore. “Me
surpreende que alguém que escreveu para uma das correntes principais da música popular
de nosso tempo também possa compor um trabalho aceitável no campo clássico.
Independente de observações críticas secundárias, Ecce Cor Meum é um trabalho especial”,
diz De Vivo, enquanto Dunsmore opina entusiasmado: “Adoro a jovem natureza positiva de
Paul e sua inventividade melódica. Posso ver Ecce cor meum se tornando uma peça muito
querida, por que não? Nem toda grande música precisa causar rugas na testa ou deixar o
ouvinte emocionalmente esgotado”.
* Publicado com o título de “Paul McCartney em concerto”.s.
Eu, por meu turno, tenho o CD "Oratório de Liverpool" e o CD "Ecce cor meum", e achei ambos bem interessantes.
Alberto
“No concerto de hoje, peças de... Paul McCartney”*
Álbum Ecce cor meum recebe o maior prêmio da música clássica inglesa e destaca
trajetória erudita do ex-Beatle, iniciada há mais de quinze anos
Carlos Eduardo Amaral
Continente Multicultural nº 79 - Jul/2007
No último dia 03 de maio, a expectativa na entrega do Classical Brit Awards
inusitadamente girou em torno de dois roqueiros da velha guarda que enveredaram na
música clássica e concorriam a “Melhor álbum do ano”, fato inédito na história da premiação.
Um foi Sting, que lançou ano passado Songs from the Labyrinth, no qual interpreta canções
do renascentista conterrâneo John Dowland (1563-1626), acompanhado pelo alaudista
bósnio Edin Karamazov; o outro foi Paul McCartney, que acabou levando o prêmio com Ecce
cor meum (Eis meu coração), um oratório em quatro movimentos, para soprano, coro misto,
coro infantil masculino e orquestra.
O álbum de Paul McCartney desbancou não somente Sting, mas o tenor Alfie Boe, o
barítono galês Bryn Terfel e outros seis CDs. A eleição da categoria não foi realizada pela
crítica; votaram os leitores da rádio Classic FM, organizadora do evento, e da Classic FM
Magazine, a revista da emissora. Claro que teve peso uma terceira categoria de eleitores: os
fãs de McCartney, equivalente a não-se-sabe quantas vezes a soma dos outros nove
concorrentes e que dão-lhe uma força em qualquer ocasião, mesmo em se tratando de
incursões em outros gêneros.
Ano passado, a estréia mundial de Ecce cor meum, na Inglaterra, e a estréia
americana, em pleno Carnegie Hall, mais do que premières em si, tornaram-se eventos de
tietagem, conforme o New York Times cobriu: “De um camarote central, cercado por
celebridades da mesma categoria, o compositor distinguia os gritos, os cliques das câmeras e
as bandeirolas em uma casa cheia, que parecia quase relutante em voltar a atenção para o
palco”.
Ao voltar-se à peça em si, o repórter Bernard Holland, não optou pela moderação: “A
grandeza da sensibilidade de McCartney esconde sua insignificância. Aumentando sua
intensidade, ela não se aprofunda em qualidade. Ao contrário, ela afunda a música e a
mensagem em um tipo de sentimentalidade viscosa. (...) Usando um vocabulário de cordas
cantantes, golpes nos tímpanos, floreios de metais e explosões virtuosísticas do órgão, o
Paul McCartney que avaliamos se traduz pobremente”.
Um julgamento meio pesado para um aprendiz esforçado, e que merecia ser dirigido a
investidas anteriores de Sir James Paul McCartney. Ecce cor meum é o quarto CD de uma
“carreira erudita” debutada em 1991. Naquele ano, o Liverpool Oratorio (Oratório de
Liverpool) atraiu a atenção da mídia e lançou mão de cantores solistas de peso na estréia. O
tenor Jerry Hadley recebeu o papel do protagonista Shanty, que nasce em plena Segunda
Guerra, mata aula na escola, perde o pai ainda jovem, casa-se com Mary Dee (personagem
de Kiri Te Kanawa), passa por instabilidades financeiras e conjugais e vive a felicidade de ter o
primeiro filho. Shanty podia atender por Paul, pois o enredo é, mal disfarçadamente,
autobiográfico.
O Oratório de Liverpool é um oratório no sentido romântico, ou seja, uma peça do
gênero que não aborda necessariamente um tema sacro que resulta, portanto, numa ópera
para sala de concerto, sem encenação e foi composto em colaboração com o maestro Carl
Davis, já que Paul McCartney só tivera algumas lições de piano na infância e nunca aprendeu
notação musical. A ajuda era imprescindível para tarefas mais complexas, a exemplo da
estruturação de idéias melódicas, da orquestração e da incrementação da harmonia. A má
recepção da crítica à iniciativa de um artista pop se aventurar pela música clássica não
atrapalhou a vendagem: o CD permaneceu no topo mundial dos álbuns clássicos por várias
semanas.
O elementar impedimento da falta de alfabetização musical não inibiu a EMI, com
quatro anos de antecedência, de encomendar a Paul uma grande obra para celebrar o
centenário de fundação da gravadora. Daí surgiu Standing stone (1997), um poema sinfônico
(mais propriamente, coral-sinfônico) em quatro movimentos que comportam dezenove
sessões. Em geral, os poemas sinfônicos são em movimento único; a divisão é justificada
pelos 75 minutos de duração da peça, baseada num poema (literário) de Paul que recria o
mito do surgimento do universo, da vida e da existência humana a partir do ponto de vista
celta. Além do poema sinfônico, duas telas à óleo derivaram dos versos originais.
Da desordem intencional das primeiras notas tocadas sem dedilhado nas cordas e
nos sopros, conotando o caos e a incipiência ao canto final do coro que balbucia e forma
uma letra depois de passar outros movimentos entoando vocalises , a música celta é o cerne
dos temas, exceto por uma pincelada atonal, na cena Lost at sea. Desta vez, um software e
um teclado especial permitiram a Paul McCartney caminhar sozinho, sob orientações
técnicas de Richard Rodney Bennett e outros amigos. Standing Stone (que quer dizer “a
pedra que jaz em pé”, um menir à la Stonehenge) foi o ultimo trabalho de antes do falecimento
de Linda McCartney e ostenta uma importante referência dela. A foto de capa do CD, tirada
por Linda, é oriunda do primeiro CD de Paul (McCartney, 1970).
Enquanto Standing Stone estava sendo concebido, surgiram outras quatro peças
isoladas. Duas delas, Spiral e A leaf, integram o terceiro CD da linhagem. Ocorre que Working
classical (1999) está mais para uma coletânea de arranjos: das 14 faixas, nove são
reinstrumentações para quarteto de cordas de canções pop, extraídas de cinco CDs
anteriores de Paul. As inéditas Haymakers e Midwife, para quarteto, e Tuesday, para
orquestra, completam o repertório instrumentado por R. R. Bennett e Jonathan Tunick. Em A
leaf, McCartney ainda arriscou um trecho em estilo mozartiano alla turca.
Haymakers, Midwife e o arranjo de Junk são peças plácidas e graciosas; Warm and
Beautiful e My love guardam uma emotividade tipicamente britânica, com melodias
românticas mas não passionais. Maybe I'm amazed é bem ritmada e fiel à peça original. Isso
tudo é dito no que se refere à atmosfera das obras, porque a qualidade delas oscila; em boa
parte das composições, faltam densidade harmônica e um melhor aproveitamento do
quarteto, principalmente do violoncelo. Quanto ao sucesso de vendas, tanto Working
Classical quanto Standing Stone conseguiram emplacar nas paradas clássicas do Hemisfério
Norte.
Em 2000, surge o CD Garland for Linda, cujo objetivo era arrecadar fundos para a
organização The Garland Appeal, estabelecida para combater o câncer de mama. Não se
trata de um álbum autoral (por conta disso, não contabilizado no catálogo erudito de Paul) e,
sim, de uma coletânea de peças corais de compositores ingleses de várias épocas, como
John Rutter, John Taverner, Ralph Vaughan-Williams e Micheal Berkeley. Paul McCartney dá
uma de maestro e rege sua Nova, a primeira criação pós-refrigério, num ato que significou o
fim do luto pela morte de Linda.
A auto-referência da criação musical erudita de Paul parece evidente até aqui. O
Oratório de Liverpool (cuja adaptação para apresentação cênica está sendo preparada pela
atriz Kate Robbins) retrata a vida do próprio McCartney. O poema Standing Stone inspirou as
duas telas e o poema sinfônico e um revival discográfico compõe Working classical. Linda
pode ter sido a força-motriz, considerando só as peças clássicas, de Nova, em Garland for
Linda, mas ela se fez mais presente em Ecce cor meum, iniciado em 1998 e concluído em
2005.
É interessante assinalar três pontos desse evocativo “Réquiem para Linda”. Apesar de
Ecce cor meum possuir frases em latim, nada complexas e que fazem a mídia divulgar o
libreto como bilíngüe, elas não somam mais de dez por cento dos versos. Apesar de Ecce cor
meum ser nominalmente um oratório, não tem a linha narrativa que caracteriza esse tipo de
obra; é a rigor uma cantata. E apesar dos oratórios tradicionais remeterem a episódios
bíblicos, Ecce cor meum é um caso único de oratório deísta, pois evoca não a Deus, mas ao
Espírito: “Spiritus, spiritus, lead us to love”.
Se Paul fosse aluno de composição, teria merecido uma boa nota em sua emulação
dos oratórios ingleses só não agradaria aos professores mais progressistas. O crítico Allan
Bozinn, também no New York Times, avaliou os recentes mergulhos de vários roqueiros no
universo erudito, e, sem tocar nos méritos das experiências, observou que “Astros do rock
que se interessam por música clássica são grotescamente conservadores. Eles podem tocar
os materiais musicais mais eletrificados, distorcidos e de acentuação agressiva, mas quando
decidem escrever música clássica, ou o que eles pensam ser música clássica, empunham
uma pena em vez de uma caneta. Com a exceção notável de Frank Zappa cujos rascunhos
refletem a fascinação dele com Edgard Varèse e outros modernistas, músicos de rock
parecem pensar que as convenções do século 19 são o idioma atual de música clássica”.
Ecce cor meum se enquadra nessa constatação. Mas o êxito da obra se deve
justamente por tocar no gosto da maioria dos apreciadores de música clássica, como opinam
os blogueiros Darren De Vivo, da rádio WFUV de Nova Iorque, e David R Dunsmore. “Me
surpreende que alguém que escreveu para uma das correntes principais da música popular
de nosso tempo também possa compor um trabalho aceitável no campo clássico.
Independente de observações críticas secundárias, Ecce Cor Meum é um trabalho especial”,
diz De Vivo, enquanto Dunsmore opina entusiasmado: “Adoro a jovem natureza positiva de
Paul e sua inventividade melódica. Posso ver Ecce cor meum se tornando uma peça muito
querida, por que não? Nem toda grande música precisa causar rugas na testa ou deixar o
ouvinte emocionalmente esgotado”.
* Publicado com o título de “Paul McCartney em concerto”.s.
Editado por Alberto, 11 novembro 2010 - 12:02.












