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Trilha sonora para tiranias


12 respostas neste tópico

#1 Eugenio

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Postado 06 setembro 2006 - 12:44

http://veja.abril.co...0906/p_132.html

Música
Trilha sonora para tiranias

Como os compositores eruditos conviveram
com os regimes autoritários do século XX


Sérgio Martins

No dia 21 de novembro de 1937, o compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) apresentou sua Quinta Sinfonia ao público de Leningrado, atual São Petersburgo. As dissonâncias e o ritmo caótico da obra causaram a princípio um estranhamento. Perto do final, a mudança para um andamento de marcha militar conquistou a platéia. Os integrantes do Partido Comunista ouviram a música da seguinte forma: ela mostrava o progresso da Rússia, do caos czarista à glória e à ordem trazidas pela revolução de 1917. Atualmente, contudo, especialistas lançam outras interpretações. "O que a obra sugeria é que a ditadura de Stalin também era cruel e castigaria os russos", explica Valery Gergiev, maestro e autoridade na obra do compositor soviético. Às vésperas do centenário do nascimento de Shostakovich, no dia 25, a polêmica sobre sua relação com o stalinismo – ele foi um colaborador ou um diss idente? – é a que mais ecoa. A discussão se alarga ao incluir outros criadores que viveram sob regimes autoritários. Mais do que outras artes, a música, sobretudo em sua forma instrumental, acomoda facilmente interpretações opostas. Mas as grandes ditaduras do século XX – e esse é um de seus traços mais peculiares – quase sempre professaram ideais estéticos possíveis de rastrear (ou não) em óperas e sinfonias. Sem falar, é claro, nas declarações deixadas pelos próprios artistas sobre suas simpatias políticas.

Os regimes autoritários que se dedicaram a deitar normas para a criação musical se mostraram sempre inimigos do modernismo. Valores como a dissonância eram execrados como produto de sociedades decadentes. O stalinismo preferia os temas folclóricos russos, e o nazismo substituiu a inovação por obras que resgatassem o "espírito" alemão – obras baseadas em mitos germânicos ancestrais, como Carmina Burana, de Carl Orff. O fascismo não tinha um ideário artístico tão claro. Violinista e cantor diletante, o ditador Benito Mussolini usava a música de forma populista, como mais um instrumento para conquistar as massas. "Ele fazia as orquestras italianas tocar nas cidades do interior porque defendia que a música tinha de ser levada ao país inteiro", diz o estudioso de ópera Sergio Casoy.

Toda ditadura, claro, sempre contou com adesistas. Bajulados pelo regime fascista, os italianos Pietro Mascagni e Alfredo Casella compuseram óperas inspiradas nas campanhas militares do Duce. No Brasil, a ditadura de Getúlio Vargas contratou o compositor Villa-Lobos para que ele implantasse um método de educação musical nas escolas – e o músico exaltou o nacionalismo da era Vargas em obras como O Canto do Pajé e Uirapuru. O ponto alto da dedicação de Villa-Lobos ocorreu em um concerto no estádio do Vasco da Gama, em 1941. Às vésperas da récita, que teria o presidente como convidado de honra, Villa-Lobos foi dizer ao ministro da Educação, Gustavo Capanema, que as dores de uma hérnia o impediam de reger. "Se você tiver de morrer, pelo menos morra heroicamente no campo de batalha", retrucou o ministro. Villa-Lobos, claro, regeu o concerto.

Os alemães Carl Orff e Richard Strauss eram soldados bem mais dedicados do regime. Admirador de Richard Wagner (um notório anti-semita), Hitler na verdade entendia pouco de música – gostava de ópera por sua teatralidade. Mesmo assim, admirava a exaltação germânica de Orff – que foi até incumbido de reescrever a música da peça Sonho de uma Noite de Verão, do judeu Felix Mendelssohn (tarefa nunca concluída). Strauss foi o compositor do hino das Olimpíadas de 1936, em Berlim – mas, após a derrota da Alemanha na II Guerra, ofereceu seus dotes musicais aos aliados. Há quem avente uma desculpa para a adesão de Strauss ao nazismo: teria sido uma tentativa de salvar sua nora, que era judia.

Os casos mais conflituosos e ambíguos se deram sob o stalinismo. O regime também contou com adeptos ferrenhos, como Aram Khachaturian. Shostakovich, como já se viu, é um caso dúbio. Foi criticado por Stalin quando apresentou a ópera de vanguarda Lady Macbeth de Mtsensk, em 1936. Como bom comunista, aceitou as críticas e dedicou-se a obras de tom oficial – nas quais, porém, às vezes semeava suas dissonâncias. Compôs até a trilha de A Queda de Berlim, filme de guerra propagandístico em que Stalin era retratado como herói. Sempre que o ditador aparecia em cena, o fundo musical era meloso, sem grandes inovações. Sergei Prokofiev, de outro lado, não conheceu as boas graças do regime. Foi perseguido porque passou anos fora do país e voltou "contaminado" pela dissonância. A boa música consegue sobreviver mesmo em contextos repressivos – mas os músicos, se não forem canalhas, vivem melhor na democracia.



Música & poder

Os compositores e suas homenagens às ditaduras

Fascismo
Principais colaboradores
Pietro Mascagni (1863-1945) e Ottorino Respighi (1879-1936)
Imagem Postada
O que compuseram
Mais conhecido pela ópera La Cavalleria Rusticana, Mascagni era simpático ao ditador Benito Mussolini. Foi eleito o compositor oficial do regime e compôs a ópera Nerone, em homenagem ao ditador. Respighi foi autor de A Trilogia Romana, uma das obras prediletas de Mussolini, mas se esquivou de apoiar o ditador em público

Nazismo

Principais colaboradores
Richard Strauss (1864-1949) e Carl Orff (1895-1982)
Imagem Postada
O que compuseram
Strauss compôs e regeu o hino das Olimpíadas de Berlim (1936) e colocou frases anti-semitas no libreto de suas óperas. Orff ganhou simpatia do regime nazista com a obra Carmina Burana, que tinha como influências a poesia medieval alemã e mitos greco-romanos. Ele também foi convidado a reescrever a música da ópera Sonho de uma Noite de Verão, cujo autor, Mendelssohn, era judeu

Stalinismo
Principais colaboradores
Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Aram Khachaturian (1903-1978)
O que compuseram
Shostakovich tinha relações dúbias com o regime comunista. Ele compôs obras como a 11ª Sinfonia, em que condenou o massacre de civis pelo czar russo. Em compensação, a ópera Lady Macbeth de Mtsensk desagradou a Stalin. Khachaturian era stalinista ferrenho. Sua obra mais conhecida, o balé Gayane, se passa numa fazenda e tem como tema a vida no campo. É cheio de temas folclóricos, bem ao gosto de Stalin – como por exemplo, a Dança dos Sabres

Imagem Postada Imagem Postada
Dmitri Shostakovich (à esq.) e o ditador Josef Stalin: interpretações conflitantes da vida e da obra do compositor
Violão Popular Brasileiro: http://brazilianguitar.net

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#2 Alvaro Henrique

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Postado 06 setembro 2006 - 13:43

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#3 Flavio Gondin

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Postado 06 setembro 2006 - 14:01

Visualizar PostAlvaro Henrique, em Sep 6 2006, 01:43 PM, disse:

Desculpe, o tópico estava fechado, mas não vi motivo pra isso.


Também não vejo nenhum motivo para fechar o tópico a não ser excesso de zelo.
Tenha fome de saber como o leão tem fome de alimento.

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#4 Alvaro Henrique

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Postado 06 setembro 2006 - 14:04

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#5 Eugenio

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Postado 06 setembro 2006 - 14:05

Com poucas exceções, a música erudita sempre dependeu do subsídio da Igreja e do Estado para sobreviver. Natural que alguns compositores tenham se visto às voltas com maus governantes.

Visualizar PostFlavio Gondin, em Sep 6 2006, 03:01 PM, disse:

Visualizar PostAlvaro Henrique, em Sep 6 2006, 01:43 PM, disse:

Desculpe, o tópico estava fechado, mas não vi motivo pra isso.
Também não vejo nenhum motivo para fechar o tópico a não ser excesso de zelo.

O fechamento deve ter sido acidental, como já ocorreu outras vezes. Toda vez que um tópico é fechado intencionalmente, vai a explicação na última mensagem do motivo.
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#6 Flavio Gondin

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Postado 06 setembro 2006 - 14:30

Ah, bom. :icon_twisted:

Em relação ao Villa, a colaboração com Getúlio não diminui em nada o valor de sua música. Uma coisa é a obra de arte, outra são as atitudes do sujeito. Discordo do colunista quando ele se mete a "julgar" os compositores pela música que eles fizeram. A música pode ter toda uma rede de significações que não se esgotam com a presença de um ideário estético de alguma ideologia. Então o argumento que ele usa pra tecer o artigo já está furado na origem.

O que pode ser dito - e o colunista insinua - é sobre o uso da arte na máquina de propaganda desses regimes, o que aconteceu também com o cinema na Alemanha nazista. Mas é bom notar que esses expedientes de convencimento e propaganda também são usados nas democracias, inclusive para vender produtos.
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#7 Jether

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Postado 06 setembro 2006 - 15:29

Visualizar PostFlavio Gondin, em Sep 6 2006, 02:30 PM, disse:

O que pode ser dito - e o colunista insinua - é sobre o uso da arte na máquina de propaganda desses regimes, o que aconteceu também com o cinema na Alemanha nazista. Mas é bom notar que esses expedientes de convencimento e propaganda também são usados nas democracias, inclusive para vender produtos.


A mente humana é de uma complexidade absurda, e estamos muito longe de entender todos os seus mecanismos.

Várias experiências já demonstraram que pessoas comuns cometem atrocidades quando inseridas em determinados contextos, atrocidades que elas mesmas se estivesse como observadoras nunca imaginariam ser capazes de cometer, e provavelmente condenariam aqueles que as cometessem.

È fácil julgar quando estamos fora do contexto, e portanto é temerário fazê-lo.

Por exemplo, Segóvia foi muito criticado pelo apoio ao regime do General Franco, ao que ele respondia, como único meio de se desenvencilhar do embaraço causado por questionamentos sobre o tema, que só um espanhol vivendo na Espanha poderia entender a situação política do país. Observe-se que ele estava vivendo um exílio auto-imposto, e com isso dizia indiretamente não me pergunte nada, eu sou espanhol mas não estou vivendo lá.

Não quero dizer com isto que devemos perdoar todo e qualquer ato praticado debaixo do manto das ideologias. Os excessos devem ser punidos com o rigor que demandarem, uma vez que por exemplo, acredito na justiça da instituição do Tribunal de Nuremberg, apesar da existência des argumentos contrarios que se baseiam no fato de que nele, se condenou os envolvidos por crimes que não estavam previamente definidos como tal e qual a pena aplicável ao caso, princípio "Nulum crime, nula poena sine lege".

Creio que agiremos com mais justiça se não estivermos ávidos por uma condenação, e se por acaso chegarmos a conclusão que devemos condenar, que a nossa "sentença" atinja apenas os atos condenáveis e não toda a vida do condenado.
Jether
Eu sou um violonista amador e não um músico amador, se o violão produzisse outra coisa que não música, era esta outra coisa que eu estaria fazendo.

#8 FZanon

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Postado 06 setembro 2006 - 15:46

Achei o artigo fraco e mal-escrito, simplificando situações muito complexas. Uirapuru foi escrito em 1917, bem antes de Vargas, portanto.
De um lado falamos de uma ditadura relativamente amena como a de Vargas, e de outro de Hitler e Stalin, que provavelmente não dariam muita escolha.
Faço um paralelo com o caso recente de Günther Grass, que revelou ter entrado para as SS. O que você prefere, lutar pela Alemanha ou um tiro na nuca?
Hoje falariamos de Brouwer e sua relação complexa com o governo de Fidel Castro. À parte a simpatia que Fidel ainda gera e o idealismo inicial da Revolução Cubana, Brouwer simplesmente não seria a celebridade que é se não fosse artigo cubano de exportação. O que ele deve fazer quando pedem para ele assinar um papel de repúdio por manter presos escritores que falam mal do regime?
O caso de Segovia é bem mais grave. Ele viveu fora durante a guerra civil e 2a. Guerra, mas deu apoio moral ao regime franquista, dedurou colegas, fechou os olhos quando seu vizinho Garcia Lorca foi assassinado e jamais deixou de tocar na Espanha. Não esteve sozinho, Cassadó fez o mesmo e até gente teoricamente neutra como Palau foi boicotada por essa falta de sensibilidade. Casals nunca mais tocou na Espanha, em protesto; nunca mais dirigiu a palavra a Segovia ou a Cassadó e nem menciona seus nomes na sua auto-biografia.
Vejam que o regime franquista foi muito duro; qualquer um com inclinação contrária se mandou. Dentre os compositores não sobrou quase ninguém de peso, só Torroba e Rodrigo que eram "neutros".

#9 Bocudo

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Postado 06 setembro 2006 - 18:22

so assim pra gente descobrir os podres...
cortaram minha assinatura porque eu amo a aninha... coitado do Bocudo...

#10 EL CABONG

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Postado 06 setembro 2006 - 18:42

Terá Franco presidido a Inquisição Espanhola do Sec XX?
Saludos
El Cabong