Postado 24 janeiro 2009 - 19:59
Bom, primeiro o professor ou orientador tem de realmente ter alguma segurança de que está apto a emitir um juízo tão negativo sobre outra pessoa. Quando falta pedagogia, é muito fácil botar a culpa na falta de talento do aluno.
Todo mundo tem direito a tentar se realizar, em alguma dimensão, com música. Se o professor não tem preparo ou paciência pra lidar com quem tem uma dificuldade extrema, encaminhe para quem tem. Tem gente que só estuda o violão na aula, mas quer manter alguma relação com o instrumento; tem professor de violão sobrando no mundo; tem de haver, portanto, alguém que se disponha a atender esse caso.
É que nem gente desafinada, é até difícil explicar pra pessoa que ela não está cantando a nota que está ouvindo.
Tem de tudo, a coisa mais frequente é quem simplesmente não consegue se relacionar com a divisão no tempo. Não cosnegue contar nunca, não consegue tocar minimamente no ritmo nunca.
Tecnicamente, tem de tudo, mas é mais fácil da pessoa ver que tem alguma coisa errada. Tem quem leve anos para conseguir alternar os dedos da mão direita. Tem quem leve meses para encontrar um jeito de recurvar os dedos da esquerda de forma a conseguir pisar uma nota mais ou menos centrada. Tem quem não consiga entender a leitura de uma peça em duas vozes nunca. Simplesmente não consegue abstrair a idéia de que enquanto uma voz toca, a outra tem uma pausa. O sujeito vai ficando cada vez mais tenso, os ombros, o maxilar, o pescoço, é uma coisa muito desagradável de ver uma pessoa aprentemente normal exibir toda a sua insegurança em forma de tensão.
Para muita gente, ser capaz de tocar Noite Feliz no Natal é uma profunda realização pessoal, e a gente não pode desprezar esse tipo de coisa. Eu acho que o professor ou amigo tem de dar todo o apoio pra pessoa continuar a tocar dentro de sua modesta habilidade, se isso lhe faz feliz.
Existem casos perdidos, sim, mas eu jamais diria pra pessoa desistir do prazer de aprender e se superar de alguma forma.
O problema é que tem gente que mal toca Noite Feliz e decide, já na idade adulta, que quer ser um concertista de violão, ganhar a vida fazendo isso, conquistar os palcos do mundo, etc. E tem gente que faz sacrifícios pessoais muito grandes para poder buscar um sonho. Nesses casos, a filosofia do tapinha nas costas é a coisa mais nociva que existe. O sujeito fica na ilusão de que com muito trabalho e empenho vai superar todas as dificuldades, mas na vida real não é assim que acontece.
E, mesmo dentre as pessoas que não tiveram nenhuma dificuldade quando iniciantes, há aqueles que simplesmente não reúnem as qualidades para tocarem num nível muito alto. É uma situação muito delicada quando um aluno de curso superior tem aquela habilidade mediana, que ao longo dos anos nunca se supera. Se o cara estiver na Rússia, o professor simplesmente vai chegar pra ele e falar: "você não presta pra isso, vai procurar outra coisa pra fazer". Eu acho isso cruel, então acho que o melhor a fazer é estimular o aluno a diversificar sua atividade. Nunca se sabe, o cara pode ser um expert em análise musical ou em lidar com crianças e se tornar um grande professor de teoria, de musicalização ou algo assim.
Aqui no Brasil, o tapinha nas costas domina, então normalmente as pessoas só caem em si depois de levar muitas rasteiras na vida - sofrer críticas de terceiros, serem desclassificadas em concursos ou exames, desenvovler crises de pânico antes de concertos, etc. Sem desmerecer quem faz, há também quem se encha de canudos e consiga um posto de ensino superior. Se não houver ressentimento com a profissão, normalmente é a situação que gera grandes professores de violão.