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Dificuldade de tocar


14 respostas neste tópico

#1 Victor Hugo

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Postado 24 janeiro 2009 - 02:59

Gostaria de saber do pessoal do fórum sobre um assunto pouco focado e que de certa forma vai na contramão da tal facilidade técnica, facilidade essa que tanto exaltamos e almejamos como realização musical. Então amigos, gostaria que vocês relatassem experiências a respeito da capacidade de contornar "problemas insolúveis", aquele verdadeiro olhar clínico do grande didata, tão indispensável na formação do aluno.

Obviamente que não precisamos expor ninguém fornecendo nomes... :rolleyes:
Então pessoal, quais foram as maiores dificuldades que vocês já encontraram com alunos a nível de desenvolvimento psicomotor? Nessa hora, como vocês lidaram com a situação delicada dando noticias realistas do tipo "esqueça o instrumento, você é um caso perdido" . Como lidar com isso? Será que existe de fato pessoas casos perdidos?

abração!!!

#2 Lucas Copin

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Postado 24 janeiro 2009 - 13:19

Visualizar PostVictor Hugo, em Jan 24 2009, 03:59 AM, disse:

Nessa hora, como vocês lidaram com a situação delicada dando noticias realistas do tipo "esqueça o instrumento, você é um caso perdido" .


Eu já dei aula pra um cara que tinha muuuuuita dificuldade, mas acho que essa resposta nunca deve ser dada. No pior dos casos desencoraje o cara sutilmente ahaeheauh
Já que há um compromisso ali na aula, tem que seguir em frente, apesar de as vezes parecer que você tá batendo com a cara em um muro de pedra...

#3 Clorilda

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Postado 24 janeiro 2009 - 13:28

Olá Victor,

Eu não sou professora, mas conheço muitos alunos com real dificuldade. Mas muita dificuldade mesmo. Eu acho sim q existem casos perdidos se vc pensar em desenvolver um músico para performances de concerto. Mas melodias simples, de uma única voz, qualquer um é capaz de tocar. E de repente vc consegue matar a vontade do aluno colocando-o em formações em grupo, ou quem sabe ensinando acompanhamentos mais simplificados.
Agora, caso perdido mesmo, por conta de dificuldade técnica, eu acho q não, pq já vi até crianças com sindrome de down tocando violão (acompanhamento). Pode não ser uma maravilha, mas se o aluno gosta, é o q interessa.
Caso perdido mesmo é aluno q aprende forçado e não quer estudar. Pra esse aí não tem jeito.
Agora, precisa ver qual a sua linha. De repente vc é um professor q segue determinada linha, o q não tem nada de mal, a gente tem fazer aquilo q sabe. De repente vc desenvolve alunos apenas para música de concerto. Nesse caso, vale encaminhar o aluno para um professor q siga uma linha q o aluno tenha capacidade.
Se ele pode desenvolver acompanhamento, mande-o para um professor de música popular. Se ele só consegue tocar melodias simples, mande-o para um professor q dê aula com formação de grupos. É claro q isso tudo vai limitar o q o aluno deseja pra si mesmo. Pq muitas vezes eles querem tocar igual fulano de tal. Aí complica. Talvez nesse momento seja melhor falar francamente, mas é claro q sempre com cuidado, pq vc não vai querer criar um frustrado por aí.
Os "casos perdidos" q encontrei por aqui normalmente são pessoas de mais idade, que começaram a estudar música após os 40 ou 50 anos. E é claro q essas pessoas terão muito mais dificuldades, uns mais do q outros, pq as conexões necessárias não foram desenvolvidas na idade certa. Mas normalmente dá pra desenvolver formações em grupo com essas pessoas, ainda q seja só no âmbito da música popular.

#4 Lilian Magnani

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Postado 24 janeiro 2009 - 13:51

Concordo totalmente com a Clorilda!

#5 Jefferson Garrido

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Postado 24 janeiro 2009 - 14:49

Qualquer pessoa é capaz de tocar, é só querer e estudar, mas, fazendo uma comparação ¨besta¨, é que nem futebol, todo mundo pode bater uma bolinha, mas poucos chegam a Garrincha, Pelé...

#6 Victor Hugo

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Postado 24 janeiro 2009 - 17:05

Realmente é verdade pessoal, a prática é tudo, tem que estudar! E se colocarmos então no mesmo saco falta de tempo com dificuldade natural, ae é que o bicho pega...
Pra vocês terem idéia não sou professor e nunca tive pretensão e qualidade pra isso. Foi com muita, mas muita relutancia mesmo que peguei esse desafio, o de "tentar ensinar" uma pessoa muito querida cujo sonho é tocar violão.

Primeiro dia, pedi pra ela "esquecer" a mão esquerda e ir só sentindo o instrumento, dedilhando várias possibilidades de digitação... e não é que ela adorou, dizendo que que as outras pessoas que tinham tentado ensiná-la deixaram-na traumatizada? Então procurei focar só a mão direita a princípio. Semana seguinte vi que ela apesar das dificuldades tinha assimilado alguns dedilhados, dae tentei partir pros acordes... Os dedos pareciam colados! não tinha jeito que ficassem no lugar...

Que é que eu pensei então? esqueça acordes, vamo tentar fortalecer a musculatura dessa mão com escalas cromáticas. Atualmente vejo que com muitas dificuldades ela tem tocado as escalas mas o desafio continua, e é claro, não podemos esquecer, sempre observando questões posturais e de tensão alertando-a :)

O problema é que em sendo uma pessoa com uma dificuldade natural aliado à falta de tempo pra praticar ae é que a coisa pega mesmo nos deixando numa saia justa... mas o lance é acreditar!!!

É isso galera, gostaria de mais relatos como troca de experiências, sei que muita gente aqui ensina de fato e com certeza já deve ter pego alunos com dificuldades e conseguido reverter a situação.

abração

#7 FZanon

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Postado 24 janeiro 2009 - 19:59

Bom, primeiro o professor ou orientador tem de realmente ter alguma segurança de que está apto a emitir um juízo tão negativo sobre outra pessoa. Quando falta pedagogia, é muito fácil botar a culpa na falta de talento do aluno.
Todo mundo tem direito a tentar se realizar, em alguma dimensão, com música. Se o professor não tem preparo ou paciência pra lidar com quem tem uma dificuldade extrema, encaminhe para quem tem. Tem gente que só estuda o violão na aula, mas quer manter alguma relação com o instrumento; tem professor de violão sobrando no mundo; tem de haver, portanto, alguém que se disponha a atender esse caso.
É que nem gente desafinada, é até difícil explicar pra pessoa que ela não está cantando a nota que está ouvindo.
Tem de tudo, a coisa mais frequente é quem simplesmente não consegue se relacionar com a divisão no tempo. Não cosnegue contar nunca, não consegue tocar minimamente no ritmo nunca.
Tecnicamente, tem de tudo, mas é mais fácil da pessoa ver que tem alguma coisa errada. Tem quem leve anos para conseguir alternar os dedos da mão direita. Tem quem leve meses para encontrar um jeito de recurvar os dedos da esquerda de forma a conseguir pisar uma nota mais ou menos centrada. Tem quem não consiga entender a leitura de uma peça em duas vozes nunca. Simplesmente não consegue abstrair a idéia de que enquanto uma voz toca, a outra tem uma pausa. O sujeito vai ficando cada vez mais tenso, os ombros, o maxilar, o pescoço, é uma coisa muito desagradável de ver uma pessoa aprentemente normal exibir toda a sua insegurança em forma de tensão.
Para muita gente, ser capaz de tocar Noite Feliz no Natal é uma profunda realização pessoal, e a gente não pode desprezar esse tipo de coisa. Eu acho que o professor ou amigo tem de dar todo o apoio pra pessoa continuar a tocar dentro de sua modesta habilidade, se isso lhe faz feliz.
Existem casos perdidos, sim, mas eu jamais diria pra pessoa desistir do prazer de aprender e se superar de alguma forma.
O problema é que tem gente que mal toca Noite Feliz e decide, já na idade adulta, que quer ser um concertista de violão, ganhar a vida fazendo isso, conquistar os palcos do mundo, etc. E tem gente que faz sacrifícios pessoais muito grandes para poder buscar um sonho. Nesses casos, a filosofia do tapinha nas costas é a coisa mais nociva que existe. O sujeito fica na ilusão de que com muito trabalho e empenho vai superar todas as dificuldades, mas na vida real não é assim que acontece.
E, mesmo dentre as pessoas que não tiveram nenhuma dificuldade quando iniciantes, há aqueles que simplesmente não reúnem as qualidades para tocarem num nível muito alto. É uma situação muito delicada quando um aluno de curso superior tem aquela habilidade mediana, que ao longo dos anos nunca se supera. Se o cara estiver na Rússia, o professor simplesmente vai chegar pra ele e falar: "você não presta pra isso, vai procurar outra coisa pra fazer". Eu acho isso cruel, então acho que o melhor a fazer é estimular o aluno a diversificar sua atividade. Nunca se sabe, o cara pode ser um expert em análise musical ou em lidar com crianças e se tornar um grande professor de teoria, de musicalização ou algo assim.
Aqui no Brasil, o tapinha nas costas domina, então normalmente as pessoas só caem em si depois de levar muitas rasteiras na vida - sofrer críticas de terceiros, serem desclassificadas em concursos ou exames, desenvovler crises de pânico antes de concertos, etc. Sem desmerecer quem faz, há também quem se encha de canudos e consiga um posto de ensino superior. Se não houver ressentimento com a profissão, normalmente é a situação que gera grandes professores de violão.

#8 Jefferson Garrido

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Postado 24 janeiro 2009 - 20:25

É Zanon, concordo com tudo o que vc escreveu. Como diz o ditado: ¨Cada um no seu quadrado¨

#9 Victor Hugo

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Postado 24 janeiro 2009 - 20:48

Zanon, essa sua explicação mostrando casos e casos foi simplesmente completa!!!
É muito delicado mesmo essa relação de professor com aluno ainda mais na forma como o cara se comunica, dependendo o professor pode até plantar um grande bloqueio e frustração, coisa que ninguém merece de fato.

#10 AndréBP

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Postado 25 janeiro 2009 - 18:47

Visualizar PostFZanon, em Jan 24 2009, 08:59 PM, disse:

Se o cara estiver na Rússia, o professor simplesmente vai chegar pra ele e falar: "você não presta pra isso, vai procurar outra coisa pra fazer". Eu acho isso cruel, então acho que o melhor a fazer é estimular o aluno a diversificar sua atividade. Nunca se sabe, o cara pode ser um expert em análise musical ou em lidar com crianças e se tornar um grande professor de teoria, de musicalização ou algo assim.


Essa é uma maneira extremamente elegante de se fazer a mesma coisa. :gargalhada: :rolleyes:

Falando sério, excelente post, mais um que dá pra colocar num livro sobre o fórum.
Forte abraço.