Este texto é a transcrição integral do chat de Marcelo Kayath com usuários do Fórum Violão Erudito, no dia 27/4/2009, às 21:30. Optou-se por manter a forma original do chat, de forma a reproduzir o mais fielmente possível o evento. Foram feitas algumas correções de digitação e removeram-se as mensagens do moderador autorizando as perguntas dos participantes
O chat contou com a participação flutuante de 50 pessoas, limite técnico máximo, razão pela qual resolvemos disponibilizar esta transcrição de forma a contemplar os mais de 3 mil membros de nossa comunidade.
Junto com este documento, a Equipe de Moderação do Fórum agradece a todos os participantes, especialmente ao nosso convidado.
<Administrador> Sejam bem-vindos ao primeiro Chat Temático do Violao.org.
<Administrador> Pedimos que esperem até às 21:30 antes de pedirem pela palavra na sessão de perguntas para o nosso convidado
<FZanon> Em nome dos moderadores e dos usuários do fórum, gostaria de agradecer ao Marcelo pela enorme gentileza em estar aqui conosco.
<FZanon> Poucas vezes tivemos tamanho privilégio, e estou certo de que será de enorme importância para todos que participarem.
<FZanon> É raro que um artista de seu calibre seja tão generoso. Agora vamos ao chat.
<Administrador> Lembrado a todos as regras:
<Administrador> Perguntas endereçadas ao convidado nesta sala dependem de autorização prévia do moderador
<Administrador> O moderador anotará o seu pedido de palavra e o notificará no momento certo para enviar sua pergunta
<Marcelo Kayath> Boa noite a todos
<Marcelo Kayath> Antes de começar, queria cobrir três pontos:
<FZanon> Olá, Marcelo, consegue ler as mensagens anteriores_
<Marcelo Kayath> (1) Queria começar agradecendo ao Forum pela oportunidade de participar desse debate com vcs aqui hj, e em especial ao Ricardo Dias e ao Fabio Zanon pelo convite. Podem contar comigo sempre para ajudar no que for possível
<Marcelo Kayath> (2) Queria tb agradecer aos membros do Fórum pelo interesse em participar desse bate-papo ? obrigado a todos!
<Marcelo Kayath> (3) Por último, queria pedir desculpas pelo texto longo ? Ricardo me pediu uma introdução, acabei me empolgando.
<Marcelo Kayath> Dito isso, vamos lá. Estou à disposição de vcs. Moderador, por onde começamos?
<Paulo Marques> Muitas das suas gravações foram feitas com o Fleta. Numa situação hipotética, se aquelas gravações fossem feitas hoje, com a sua concepção sonora/musical atual, você ainda usaria o Fleta ou procuraria um instrumento com características distintas?
<Marcelo Kayath> ótima pergunta!
<Marcelo Kayath> a razão de usar Fleta naquela época era que não só o som era maravilhoso, mas variava pouco
<Marcelo Kayath> Na Inglaterra, USA, Brasil etc
<Marcelo Kayath> Não tinha susto
<Marcelo Kayath> e no estúdio funcionava bem
<Marcelo Kayath> Tentei alternativas
<Marcelo Kayath> No disco de VL e Garoto, usei um John Gilbert na maioria das faixas
<Marcelo Kayath> Fleta só em duas faixas
<Marcelo Kayath> acabei não gostando do resultado e voltei pro fleta
<Marcelo Kayath> Hj eu teria que testar de novo, as coisas mudaram muito, meu som pode ter mudado (no estúdio)
<Marcelo Kayath> teria que experimentar vários violões no estúdio, ouvir um pouco e decidir
<Marcelo Kayath> mas acho que tentaria usar o meu Hauser de 1948, violão excepcional que eu não tinha naquela época -
<Joao de Lima> Marcelo, no seu artigo de introdução ao bate-papo de hoje você diz que o caminho do violão é o "da poesia, da beleza do som, da pequena orquestra" e que ainda há tempo de escolhermos este rumo na encruzilhada em que nos encontramos.
<Joao de Lima> Como é que você acha que essa escolha acertada em direção ao violão visto como pequena orquestra pode ser feita tento em vista que a maioria dos violonistas mais influentes no mundo hoje em dia são adeptos ao conceito de violão como grand piano
<Marcelo Kayath> sim
<Marcelo Kayath> bem, não sei se são todos adeptos do grand piano
<Marcelo Kayath> existem poetas aí fora
<Marcelo Kayath> e a sensibilidade humana não mudou
<Marcelo Kayath> acho que as pessoas percebem a diferença, sentem isso
<Marcelo Kayath> acho que o declínio (na minha visão) dos últimos 20 anos tem a ver com o grand piano
<Marcelo Kayath> assim como as pessoas sentiam alegria e felicidade interna ao ouvir segovia ou qq outro grande musico
<Marcelo Kayath> a arte sempre acaba vencendo, é questão de tempo...
<Marcelo Kayath> mas é uma luta inglória, hoje parece realmente que a maioria está do lado dos "pianistas" - cabe a nós reverter isso
<Marcelo Kayath> -
<Administrador> Oops acho interrompi o Marcelo
<Marcelo Kayath> nao - vambora
<Marcelo Kayath> pode perguntar
<Magno Amorim> Marcelo. Se você chegasse hoje ao seu auge em sua carreira como concertista, ainda assim tomaria a decisão de abandonar os palcos e se dedicar à economia?
<Marcelo Kayath> acho que a escolha não é bem essa...
<Marcelo Kayath> quando resolvi mudar de rumo, eu não tinha nenhuma outra carreira em vista
<Marcelo Kayath> apenas um diploma de engenheiro
<Marcelo Kayath> no entanto, estava um pouco cansado da rotina massacrante do violao, e queria experimentar algo diferente por um tempo
<Marcelo Kayath> não teve a ver com auge como concertista ou oportunidades em outra carreira
<Marcelo Kayath> apenas um desejo de fazer outra coisa e arejar a cabeça
<Marcelo Kayath> hoje, acho que a minha cabeça está mais assentada, sinto que sei muito mais o que eu quero com uma peça
<Marcelo Kayath> isso só os anos trazem
<Marcelo Kayath> vêm com o tempo
<Marcelo Kayath> sou feliz hj fazendo o que faço
<Marcelo Kayath> como tb sou feliz tocando hj em dia
<Marcelo Kayath> como tb era feliz tocando naquela época
<Marcelo Kayath> tudo no seu tempo
<FZanon> Marcelo, quero saber se você percebia uma diferença na apreciação de um público mais geral em comparação ao de um festival de violão, e como isso afeta a abordagem dos violonistas em som, repertório, escolhas musicais...
<Marcelo Kayath> total! ótima pergunta
<Marcelo Kayath> o público em geral apreciava as coisas sem muito preconceito
<Marcelo Kayath> Sonatina de Torroba era lindo
<Marcelo Kayath> Preludio 1 de VL era bacana
<Marcelo Kayath> etc
<Marcelo Kayath> já nos festivais havia uma cobrança por "ser diferente"
<Marcelo Kayath> tocar "coisas novas"
<Marcelo Kayath> mesmo que fossem peças de qualidade duvidosa
<Marcelo Kayath> acho que a minha época (anos 80) foi uma época de reação muito grande contra o legado de segovia
<Marcelo Kayath> todo mundo queria se distanciar daquele legado
<Marcelo Kayath> infelizmente
<Marcelo Kayath> daí veio a moda de tentar tocar coisas que , francamente, acho que JAMAIS deveriam ter sido desenterradas
<Marcelo Kayath> outra coisa: o publico em geral aprecia muito mais a musicalidade do que a tecnica circense pura
<Marcelo Kayath> isso para mim sempre ficou claríssimo
<Andre Castillo> Oi marcelo, acho que nós, não profissionais, ou ainda não sempre acabamos tendo uma visão meio lúdica da vida do concertiata, você falou agora a pouco sobre a sua rotina massacrante. poderia falar mais sobre isso? descrever a rotina de um concertista?
<Marcelo Kayath> claro! obrigado pela pergunta
<Andre Castillo> Desculpe pela demora
<Marcelo Kayath> muito estudo, o tempo todo
<Marcelo Kayath> viagens
<Marcelo Kayath> pula-pula pra todo lado
<Marcelo Kayath> programações dadas 2 anos antes...
<Marcelo Kayath> quando chega a hora do recital, muitas eu já não estava a fim de fazer aquele programa....
<Marcelo Kayath> tensão permanente, aguardando a hora
<Marcelo Kayath> e sempre tinha uma sensação que naquele dia tinha que dar tudo, talvez não houvesse segunda chance
<Marcelo Kayath> e algumas vezes não houve mesmo (risos)
<Marcelo Kayath> no início, eu adorava
<Marcelo Kayath> mas depois fui cansando, e finalmente pintou o desejo de fazer uma outra coisa
<Marcelo Kayath> não esqueça como foi a minha vida
<Marcelo Kayath> aos 16 anos, 2o premio no internacional VL
<Marcelo Kayath> aos 18, vários concursos no Brasil
<Marcelo Kayath> aos 20, paris e toronto
<Marcelo Kayath> tudo isso com faculdade no meio e recitais pelo brasil
<Marcelo Kayath> nunca estava em casa, fazia segunda chamada de metade das provas
<Marcelo Kayath> colegas caridosos ajudavam nos trabalhos...
<Marcelo Kayath> enfim, uma vida de muito esforço, um massacre...
<Marcelo Kayath> achei que ia melhorar quando me formasse e depois dos concursos, e aí piorou....
<Marcelo Kayath> em 3 anos (85-87), gravei 4 discos com repertórios totalmente diferentes
<Marcelo Kayath> ...e tocando coisas que eu tinha acabado de aprender
<Marcelo Kayath> recitais para todo lado....
<Marcelo Kayath> foi difícil, daí a decisão de dar um tempo em 88
<Marcelo Kayath> aí fui gostando, descobri uma vida ótimo fora do violão, e aí os anos foram passando...
<Marcelo Kayath> ainda consegui gravar mais dois discos: Barrios e Ponce (1990) e o disco de músicas favoritas (1991)
<Marcelo Kayath> nas horas vagas
<Marcelo Kayath> a gravadora ainda queria um disco com orquestra e uma integral do VL
<Marcelo Kayath> mas aí já estava sem saco, e decidi realmente focar em outra coisa
<Marcelo Kayath> desculpe a resposta longa
<Marcelo Kayath> foi isso
<Paulo Marques> Uma discussão recorrente aqui no fórum diz respeito ao valor do desenvolvimento da chamada "técnica pura": o treino exaustivo de escalas, arpejos, ligados, etc, fora do contexto de uma obra musical específica. Pelas gravações e, recentemente, pelos vídeos que surgiram no YouTube, percebemos que sua segurança e solidez técnicas eram absolutamente fantásticas, sempre se prestando a uma leitura muito poética do repertório. Pergunta: nos seus anos de concertista, como era a rotina (drill) em relação à tal "técnica pura"?
<Marcelo Kayath> caramba! pergunta perigosa, essa sua...
<Marcelo Kayath> olha, vou falar a verdade
<Marcelo Kayath> no inicio eu sempre me senti muito inseguro com a técnica
<Marcelo Kayath> achava que todo mundo tinha mais facilidade do que eu
<Marcelo Kayath> eu tinha começado tarde (12-13 anos)
<Marcelo Kayath> no Rio tinha muita gente tocando muito bem
<Marcelo Kayath> ainda por cima convivi muito de perto com os abreu, turibio e outros grandes
<Marcelo Kayath> assads etc
<Marcelo Kayath> me sentia muito mal, me sentia MENOS
<Marcelo Kayath> dado que comecei tarde (na minha cabeça), ataquei o problema feito um maniaco
<Marcelo Kayath> giuliani arpejos eram uma obsessão
<Marcelo Kayath> carlevaro com polegar duplo todo dia
<Marcelo Kayath> ligados!!!!
<Marcelo Kayath> eu era maníaco por estudar ligados, eu achava que não tinha boa mão esquerda
<Marcelo Kayath> lembro que estudei o estudo 3 de VL e o 10 por bastante tempo, porque achava que aquilo era o meu Everest, a montanha a conquistar
<Marcelo Kayath> enfim, estudei bastante técnica sim
<Marcelo Kayath> mas olhando hoje em retrospecto acho que exagerei, e muito
<Marcelo Kayath> nao precisava
<Marcelo Kayath> uma vez perguntei ao eduardo abreu o que ele fazia de técnica
<Marcelo Kayath> e a resposta foi de que tudo que ele precisava estava nas musicas
<Marcelo Kayath> ou seja, a partir de uma dificuldade nas musicas ele construía um exercício técnico ate vencer a dificuldade especifica
<Marcelo Kayath> claro, eduardo era excepcional, isso não serve para nós, meros mortais
<Marcelo Kayath> será que tanta escala, Giuliani, ligados na juventude me ajudou a manter a técnica de hoje?
<Marcelo Kayath> não sei, difícil saber
<Marcelo Kayath> mas hj estou convencido que é tudo mais uma questão de cabeça do que de força, técnica pura
<Marcelo Kayath> na boa: hj em dia sinto que às vezes as coisas saem mais fáceis (guardadas as devidas proporções) do que quando eu estudava direto
<Marcelo Kayath> mas estudar técnica direito não faz mal a ninguém
<Marcelo Kayath> só cuidado para não exagerar e perder o objetivo final de vista, que é FAZER MÚSICA!
<Marcelo Kayath> TOCAR VIOLÃO NÃO PODE SER UMA TORTURA
<Marcelo Kayath> tem que ser uma alegria, um prazer
<Vinicius de Abreu> Marcelo, agora há pouco você citou a palavra "preconceito" ao responder a pergunta do Zanon. Para exemplo, sabemos que o Segovia muitas vezes ignorou compositores gigantes como Augustin Barrios por puro preconteito, talvez por sua procedência paraguaia no caso, e deixou de tocar e divulgar mais ainda obras belíssimas por conta disso. Como você vê o impacto deste tipo de preconceito no meio da música em geral? Ele ainda existe? Apesar dessa questão ser um pouco pessoal, o quanto o preconteito de um figurão pesa na vida dos estudantes e concertistas?
<Marcelo Kayath> veja, todos nós passamos por isso
<Marcelo Kayath> teve gente que tentou me atrapalhar por preconceito, pq eu era brasileiro, ou por outro motivo qq
<Marcelo Kayath> tenho certeza que isso atrapalhou os abreu, o zanon e muitos outros
<Joao de Lima> Além de escutar Bream, Segovia e outros violonistas que encaram o violão como uma pequena orquestra, o que mais um aspirante a concertista pode fazer para desenvolver um som belo e colorido?
<Marcelo Kayath> e isso acontece nao só na música, como na vida
<Marcelo Kayath> temos que insistir nas nossas convicções e seguir em frente, as coisas acabam se encaixando
<Marcelo Kayath> tanto é que Barrios acabou ocupando o lugar que merece
<Marcelo Kayath> assim como o concierto de aranjuez acabou ocupando o lugar que merece, mesmo segovia não tendo tocado
<Marcelo Kayath> moderador, posso responder o joao de lima?
<cainho> Marcelo, qual o repertório que mais te agrada e qual o compositor contemporâneo que chama mais a sua atenção (se existe algum)?
<Marcelo Kayath> moderador, começo pelo joao de lima ou pelo cainho?
<dany.eudes> Marcelo, pelo cainho, por favor!
<Marcelo Kayath> Cainho, ok
<Marcelo Kayath> bem, gosto de muita coisa, mas sem patriotadas, faço minhas as palavras do Bream:
<Marcelo Kayath> VL foi o primeiro compositor que fez o violão soar realmente GRANDE
<Marcelo Kayath> só pq todo mundo toca, não devemos nos esquecer disso
<Marcelo Kayath> o violão tem duas fases: antes de VL e depois de VL
<Marcelo Kayath> dito isso, prefiro o repertório violonístico a partir do sec XIX
<Marcelo Kayath> gosto de sor e giuliani, mas não são os meus favoritos
<Administrador> Parece que fui desconectado momentaneamente
<dany.eudes> Joao de Lima, sua pergunta!
<Joao de Lima> Além de escutar Bream, Segovia e outros violonistas que encaram o violão como uma pequena orquestra, o que mais um aspirante a concertista pode fazer para desenvolver um som belo e colorido?
<Marcelo Kayath> fui desconectado, agora voltei
<Marcelo Kayath> ok Joao, obrigado pela pergunta
<Marcelo Kayath> olha, a primeira coisa é levar em conta que o som do violão é produzido pela mão direita...
<Marcelo Kayath> E PELA MÃO ESQUERDA!!!
<Marcelo Kayath> é isso que muita gente não entende
<Marcelo Kayath> note que pouquíssimos violonistas usam o vibrato com freqüência
<Marcelo Kayath> já reparou como os violinistas vibram quase cada nota?
<Marcelo Kayath> idem segovia?
<Marcelo Kayath> bream tb usa bastante?
<Marcelo Kayath> parece que ficamos com vergonha de usar o vibrato, por medo de sermos tachados de "românticos" e ultrapassados
<Marcelo Kayath> mesma coisa com os portamentos!
<Marcelo Kayath> quanta gente toca Tarrega tirando todos os portamentos???
<Marcelo Kayath> vejam, não estou advogando uma lambança à la século XIX, o que passou, passou
<Marcelo Kayath> mas devemos nos lembrar que o violão é um instrumento de cordas!!!!
<Marcelo Kayath> devemos ter bom senso e bom gosto
<Marcelo Kayath> portamentos, vibratos... isso tudo faz parte do nosso instrumento
<Marcelo Kayath> agora, eu senti que o Giuliani me ajudou MUITO a desenvolver o som
<Marcelo Kayath> me deu controle da mão direita, me ensinou a tocar (quase!)
<Marcelo Kayath> ter unhas boas ajuda, minhas unhas são MUITO fortes...mas tenho muita sorte!
<Marcelo Kayath> com unhas fracas e quebradiças, tudo fica mais complicado
<Marcelo Kayath> mas nada impede ninguém de ter um som decente hj em dia
<Marcelo Kayath> agora que ninguém se iluda: a escolha do violão faz enorme diferença
<Marcelo Kayath> só experimentando muito para chegar no violão ideal
<Marcelo Kayath> no meu caso, para concertos e gravações naquela época, fiquei no Fleta pela segurança
<Marcelo Kayath> mas era muito difícil de tocar nele, mas isso fica pra outra pergunta....
<Marcelo Kayath> next?
<Administrador> Caso sua conexão caia, é só se reconectar ao chat
<Marcelo Kayath> ok obrigado
<Amon> Você acha que o conceito de um som mais aveludado (não sei se é bem essa palavra), de mais variedade tímbrica, é aplicável a qualquer faixa do repertório violonístico, de qualquer época, como se toda música fosse inevitavelmente melhorar se tocada com uma técnica mais segoviana de produção de som? E, se sim, é plausível pensar, então, que uma sonata de Mozart para piano se beneficiaria se o som do piano fosse igualmente mais maleável? Desculpe a "pergunta dupla".
<Marcelo Kayath> eta! essa é capciosa...
<Marcelo Kayath> a resposta é não, muitas vezes a música vai exigir um som menos aveludado, mais agressivo.
<Marcelo Kayath> exemplo: quando gravei a fantasy-divisions de dodgson no meu primeiro disco, fui "passar"a música com o proprio dodgson em Londres duas semanas antes.
<Marcelo Kayath> para minha surpresa, em muitas passagens dodgson me pediu para tocar com um som mais feio em muitas passagens!!!
<Marcelo Kayath> 'UGLY"
<Marcelo Kayath> foi o termo que ele usou varias vezes
<Marcelo Kayath> ele estava buscando um contraste entre algumas das variações (divisions).
<Marcelo Kayath> Tb não se toca o estudo 10 do VL fazendo só som aveludado
<Marcelo Kayath> tem música que pede algo mais agressivo
<Marcelo Kayath> o nosso bom gosto artístico e estético é que vai dizer o som certo, na hora certa, na música certa
<Marcelo Kayath> sobre o som do piano:
<Marcelo Kayath> note que várias peças de piano ficam melhor no violão
<Marcelo Kayath> muitas vezes pq o piano não permite a variação de timbres que temos no violao
<Marcelo Kayath> a musica cresce muito no violão
<Marcelo Kayath> albeniz
<Marcelo Kayath> granados
<Marcelo Kayath> já ouviu asturias no piano?
<Marcelo Kayath> bem sem graça...
<Magno Amorim> Temos visto uma tendência em muitos violonistas da atual geração (e até alguns não tão jovens) a valorizarem elementos como articulação, dinâmica, agógica sem darem mesma ênfase a timbres e coloridos. Sobre isso, 3 questões: 1 - Você acha que essa abordagem é realmente predominante hoje e deve ser o caminho para o futuro. 2 ? o que faz com que essa abordagem se sobreponha à de Segóvia e Bream. 3 ? Do ponto de vista pessoal é a que mais te agrada como ouvinte e como violonista?
<Marcelo Kayath> Oi Magno, obrigado pela pergunta
<Marcelo Kayath> acho que não podemos separar as coisas, tudo que vc citou faz parte do todo
<Marcelo Kayath> articulação, dinâmica, timbres, colorido...
<Marcelo Kayath> acho que a abordagem predominante deveria ser:
<Marcelo Kayath> misture todos os temperos na panela
<Marcelo Kayath> experimente várias coisas diferentes, tentando ser fiel ao compositor
<Marcelo Kayath> afinal, somos intérpretes, não co-compositores
<Marcelo Kayath> uma pitada de sal, outra de tempero...
<Marcelo Kayath> MUITO IMPORTANTE: tente se gravar tocando - escute!
<Marcelo Kayath> tente se gravar de novo dois meses depois - escute!
<Marcelo Kayath> tente se filmar tocando - veja!
<Marcelo Kayath> aprendi muito vendo esses meus filmes que estão no YouTube hj em dia
<Marcelo Kayath> muitas vezes me assustei - achava a minha técnica falha
<Marcelo Kayath> e sempre impliquei que as minhas mãos eram meio tortas
<Marcelo Kayath> hj sei que isso não é verdade, e vendo os vídeos na época superei isso facilmente
<Marcelo Kayath> o que mais me agrada?
<Marcelo Kayath> ouvir um violonista tentando fazer música, mesmo que a técnica falhe!
<Marcelo Kayath> tocar escalas rápidas não deveria impressionar mais ninguém
<Marcelo Kayath> francamente, depois de ver sergio e eduardo abreu de perto, nada me espanta mais
<Marcelo Kayath> tive a sorte de ver isso muito cedo
<Marcelo Kayath> quase desisti de tocar ali mesmo (risos!)
<Marcelo Kayath> mas depois vi que tb conseguiria tocar alguma coisa
<Marcelo Kayath> do meu jeito, no meu estilo
<Marcelo Kayath> superei o trauma e segui adiante
<Marcelo Kayath> Ninguém que viu o Eduardo abreu tocando de perto o estudo 12 de sor (em terças) consegue esquecer!
<Marcelo Kayath> ou o sergio tocando a sonata de paganini
<Marcelo Kayath> depois disso, os outros são os outros, e só
<Marcelo Kayath> sorry, mas é assim que eu me senti com 15 anos, assistindo isso na minha frente, de perto
<Marcelo Kayath> estou procurando ser absolutamente sincero
<Paulo Marques> Numa das respostas você mencionou en passant que o seu Fleta não era um instrumento "fácil". Poderia falar um pouco a esse respeito?
<Marcelo Kayath> obrigado pela pergunta, paulo!
<Marcelo Kayath> O meu Fleta tinha sido modificado pelo Turibio, que tinha sido o dono original
<Marcelo Kayath> ele ficou DURISSIMO de tocar!
<Marcelo Kayath> sofri muito com o estudo 10 do VL, e tudo que exigia mao esquerda
<Marcelo Kayath> me lembro várias vezes de chegar do meio para o final de um recital com a mão esquerda doendo muito, em brasa
<Marcelo Kayath> se alguém conseguir ver o filme de um recital, vai reparar que no final eu demoro mais entre uma música e outra
<Marcelo Kayath> fico abrindo e fechando a mão várias vezes, procurando ganhar forças para chegar no final
<Marcelo Kayath> pestanas eram um suplício!
<Marcelo Kayath> lembro várias vezes de tocar o Jongo de Pernambuco de bis, e aquela música infelizmente tem pestanas do início ao fim!
<Marcelo Kayath> quase me dei mal, várias vezes
<Marcelo Kayath> enfim, depois de muito sofrer, finalmente levei o violao a Barcelona em 1988 (quando resolvi dar um tempo) e deixei o violão por lá para o Gabriel Fleta restabelecer o instrumento como ele era originalmente
<Marcelo Kayath> demorou uns 6 meses, e quando o violão voltou estava bem mais fácil de tocar
<Marcelo Kayath> um ouvinte atento nota que nos meus dois últimos discos a minha desenvoltura na mão esquerda era muito mais tranquila
<Marcelo Kayath> principalmente no disco de Favorites
<Marcelo Kayath> mas isso foi antes do Hauser....não existe nada mais fácil do que um Hauser antigo
<Marcelo Kayath> acredite nisso
<Marcelo Kayath> sai tudo
<Marcelo Kayath> não é por outra razão que segovia e muitos outros usaram Hausers enquanto puderam
<Leandro Latu> Com a sua agenda de compromissos, recitais, concursos, gravações, faculdade, viagens, como fazia seu aquecimento no violão? Nunca teve lesões musculares, tendinites, fadigas musculares ou coisas do gênero? Tem alguma dica prá quem sofre com isso?
<Marcelo Kayath> Obrigado Leandro!
<Marcelo Kayath> olha, isso é a pior coisa, uma catástrofe na vida de um violonista
<Marcelo Kayath> nunca sofri nada, graças a Deus
<Marcelo Kayath> mas as minhas unhas, como eu disse, são muito fortes
<Marcelo Kayath> e as minhas mãos são muito grandes e fortes, portanto fui abençoado, tenho muita sorte nisso
<Marcelo Kayath> mas nas vezes que comecei a sentir dor, fiz o que o bom senso recomenda: PARE ANTES QUE SEJA TARDE!
<Marcelo Kayath> Os americanos gostam de dizer: listen to your body
<Marcelo Kayath> se está doendo, alguma coisa está errado
<Marcelo Kayath> errada
<Marcelo Kayath> não insista
<Marcelo Kayath> relaxe
<Marcelo Kayath> os músculos devem se adaptar aos poucos, não adianta tocar até a exaustão
<Marcelo Kayath> aquecimento: isso é um ponto muito polemico
<Marcelo Kayath> obrigado pela pergunta
<Marcelo Kayath> tinha muito medo de começar mal um recital, então no início ficava tocando muito para esquentar
<Marcelo Kayath> depois, vi que isso é bobagem
<Marcelo Kayath> o importante é relaxar no dia
<Marcelo Kayath> é que nem vestibular
<Marcelo Kayath> o que estudou, estudou
<Marcelo Kayath> no dia estudar muito só piora
<Marcelo Kayath> DICA: se vai tocar de oite, procure tirar uma soneca de tarde
<Marcelo Kayath> para mim fazia uma diferença ENORME
<Marcelo Kayath> me sentia ótimo de nooite, novo em folha
<Marcelo Kayath> o problema foi no concurso de toronto, que na 2a fase me colocaram para tocar às 7:30 da madrugada!!!
<Marcelo Kayath> risos
<Marcelo Kayath> ok adelante!
<FZanon> O problema da gente dar ênfase à sonoridade, timbre, etc. é que muita gente acaba montando uma interpretação meio desconjuntada, mas você conseguia às vezes mudar de timbre 3 vezes na frase e manter a unidade.
<FZanon> Diga quais eram suas estrategias pra isso.
<FZanon> Digo, pra ter variedade sem perder a unidade.
<Marcelo Kayath> grande fabio obrigado pela pergunta!
<Marcelo Kayath> cara, não sei...a coisa vinha meio naturalmente...
<Marcelo Kayath> mas devo dizer que o sergio chegou a me criticar muito por isso (entre nós, como amigos)
<Marcelo Kayath> ele achava que eu estava exagerando um pouco demais, que estava perdendo a unidade etc
<Marcelo Kayath> mas eu tinha na cabeça que a coisa que tinha masi graça no violão era justamente ficar procurando e descobrindo esses sons...
<Marcelo Kayath> e aí quando toquei para segovia eu estava tao nervoso que não consegui tirar a mão do lugar!!!
<Marcelo Kayath> hahaha
<Marcelo Kayath> a mão acabou ficando do lado mais metálico, aí ele virou para mim e perguntou porque eu tocava tudo tão metálico às vezes!!!
<Marcelo Kayath> enfim, coisas do pânico que dá quando vc está tocando para o maior violonista de todos os tempos
<Administrador> Estamos com a fila vazia então eu também tenho direito a uma pergunta. Marcelo, como você deve imaginar muitos estavam aqui esperando por dicas do mercado de ações. Claro que estas perguntas não valem, mas para satisfazer a curiosidade de todos e nos manter dentro do tópico, o que você recomenda em um portfólio balanceado de ..... VIOLÕES
<Marcelo Kayath> aqui tem uma coisa curiosa...
<Marcelo Kayath> tem violões que são ótimos, mas funcionam para uns, e não funcionam para outros...
<Marcelo Kayath> não tem teoria - só tocando para ver
<Marcelo Kayath> então o primeiro passo é ver que tipo de violão cai bem na sua mão!
<Marcelo Kayath> isso às vezes demora a ficar claro, mas com o tempo isso se esclarece
<Marcelo Kayath> aí vem o segundo passo
<Marcelo Kayath> buscar os luthiers que fazem aquele tipo de violão
<Marcelo Kayath> e encher o saco dos pobres infelizes, até eles fazerem o melhor violão possível para a sua mão
<Marcelo Kayath> outra coisa: JAMAIS vendam um violão bom, mesmo que ele não tenha mais utilidade naquele momento
<Marcelo Kayath> a menos de uma necessidade econômica, claro
<Marcelo Kayath> mas se não precisar, violão bom não se vende
<Marcelo Kayath> até porque pode-se precisar dele de novo um dia
<Marcelo Kayath> segui isso na minha vida, e não me arrependo
<Marcelo Kayath> pelo contrário, me arrependo de alguns violões que tive na mão, e deixei de comprar por besteira pura
<Marcelo Kayath> por último nesse assunto: sejam amigos dos luthiers! eles são seres estranhos, mas têm o poder de fazer reis através de um violão mágico
<Marcelo Kayath> fiquem sempre por perto, nunca se sabe quando um desses malucos vai fazer um violão especial...


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