"Nith
Recebi sua MP e aqui vão algumas considerações sobre o que fiz e estou fazendo com os modelos Spiritus.
A idéia da bacia com água e as ondas que se formam depois de recebido o impacto de um objeto, sempre deu o que pensar entre os luthiers, só que do Torres para cá, optou-se pela escola do violino onde o centro do tampo é bem mais grosso do que as bordas para assim suportar o cavalete e a pressão das cordas verticalmente ao tampo e, principalmente, o violino tem seus som produzido com a fricção breu/crina/arco com a exceção dos pizicatos. Já no violão a tensão sobre o cavalete quase no meio do tampo é quase horizontal e com bem menos tensão do que um violino e, principalmente, a produção do som nas cordas é feita pela unha/ polpa/ dedo, o que resultada uma excitação/ movimentação da corda muito menor do que o violino e aí o pensar de como o violão produz sons desejados (volume, timbre, dinâmica, etc.) é muito diferente do que o violino. Creio que só conheço uma facção da Escuela de Madrid que usam os tampos mais finos no centro do que nas bordas então a maioria expressiva optou, ou por um tampo com espessura homogênea ( Hauser, Ramirez III, Bouchet) ou afinando para as bordas ( Torres, Manuel Ramirez e discípulos, Simplício, etc.)
Quando apareceu a história do Spiritus em 2001, foram informados vários aspectos para uma construção diferenciada, principalmente o fundo grosso com sapatas, e o tampo me foi informado que eu já sabia qual o design e eu não sabia porcaria nenhuma!!! Comecei a pensar e lembrei da história da bacia com água e desses anéis (ondas) formados pela energia gerada pelo impacto e fiz isso:


Ficou com um som homogêneo, equilibrado, possante e encorpado, mas meio plano, isto é, sem muitas variações tímbricas meio que ditando o seu som e interpretação. No geral eu gostei muito e cheguei a fazer um em abeto (foto 2) que está com uma amiga em Floripa. Acho que com cedro funcionou melhor, mas não (ou)vi mais este instrumento então não sei como está agora. Todos os 2 tem fundo tradicional e estão em Floripa, Ilha da Magia! Acabei descartando este princípio pois aumentava muito a mão de obra e praticamente consumia mais um tampo para de fazer os círculos. Já o seguinte fiz o "leque" em forma de pipa e este com a idéia da torção controlada. Ao longo dos anos vi vários violões com o tampo empenado na frente do cavalete, alguns ficavam quase com um prato de sopa e o recordista foi o Del Vecchio do Paulinho Nogueira, mas mesmo assim, estes instrumentos soavam muito bem então pensei uma estrutura flexível longitudinalmente ao cavalete e transversalmente ao tampo. Sabia que em poucos anos a região frontal do cavalete iria ficar concava torcendo o cavalete para frente e esta característica mais a escala elevada, mudavam significativamente a angulação das cordas ficando não mais na horizontal, mas anguladas , resultando melhor aproveitamento de energia das cordas para a movimentação do cavalete/ tampo como também o fundo grosso e sapatas em cedro do Oregon e laterais em macacaúba. Este Spiritus está com o Zanon e foi o único que fiz com a idéia da torção controlada, pois logo depois parti para a grade e atualmente faço a grade assimétrica que gera um som possante, equilibrado, dinâmico e com nuances."
Abraços,
Roberto Gomes
Plantem árvores!!
Plant trees!!!
"Memórias de um Luthier"
Editado por Roberto Gomes, 11 agosto 2009 - 13:03.
















